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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O processo de independência do Brasil (1808 - 1825)

Apontamentos para o estudo da independência do Brasil

No final do século 18, na Europa as idéias iluministas pregavam os princípios de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Com isso, não se justificava mais a existência de colônias como as da América Latina. No Brasil, a economia mineradora entrara em crise. Devido a esses fatores, essas idéias chegavam aqui com muita receptividade.
Aqui, diversas revoltas explodem contra a Coroa Portuguesa. A maioria delas reclama uma maior participação das elites nas riquezas que deixavam o país. Na Inconfidência Mineira, membros da elite brasileira tramavam tornar parte do país independente, mas foram delatados e punidos. Apenas um foi condenado à morte: Tiradentes, o único que não era da elite. Seu corpo foi esquartejado e exposto nas praças de Vila Rica para intimidar as ações do povo contra Portugal. Já na Inconfidência Baiana os populares eram maioria: Alfaiates, soldados, donas de casa, escravos. Quando a Coroa descobriu suas intenções, prendeu, massacrou e matou os representantes do povo. Perceba: o tratamento para a elite nunca era a pena de morte, mas para o povo não havia outra chance.
Na Europa, ao querer expandir os ideais da Revolução de 1789 (descritos acima) o “imperador” francês Napoleão Bonaparte impôs à Inglaterra um Bloqueio Continental impedindo o seu comércio com o resto da Europa. Como Portugal dependia da Inglaterra, furou o Bloqueio várias vezes, até que em dezembro de 1.807 Napoleão manda um exército invadir Portugal. No desespero, a família real portuguesa aceita uma sugestão inglesa: partir para a colônia Brasil. Como recompensa os ingleses pedem uma série de tratados: logo ao chegar (1.808), a Abertura dos Portos às Nações Amigas deu à Inglaterra a liberdade de comercializar com o Brasil, colocando seus produtos aqui com uma taxa 1% mais baratos do que os próprios produtos portugueses. Também foi dado aos brasileiros o direito de construir manufaturas (mas faltava capital). Perceba: O Pacto Colonial estava acabando, pois inconscientemente, os próprios portugueses estavam afrouxando as rédias sobre o Brasil. Quando tentaram voltar atrás, já era tarde.
De 1.808 à 1.825 há o que podemos chamar de Processo de Independência. Em História as mudanças sempre ocorrem em “Processos” - vários fatores “menores” se acumulam para causar uma mudança histórica “maior”.
O príncipe regente D. João teve grande dor de cabeça ao tentar conciliar os interesses de comerciantes portugueses e ingleses no Brasil. Mas em 1817, quando na Europa Napoleão já estava quase derrotado, os países se reuniram para reformular o mapa do continente. D. João não poderia participar por estar em uma colônia, então ele elevou o Brasil a “Reino Unido à Portugal”, podendo ser representado na dita reunião. Aqui, os brasileiros gostaram.
Em 1.820 estourou em Portugal a Revolução Liberal do Porto – feita por comerciantes que exigiam a volta de D. João VI (já coroado rei) ao país e a recolonização do Brasil. Ele voltou à sua terra ( não sem antes levar todas as riquezas do Banco do Brasil que ele mesmo fundou e afundou ) e deixou aqui seu filho: Pedro. Assim, a partir de 1.821 sob pressão dos comerciantes e fazendeiros portugueses que viviam aqui e lá, D. João VI começa a mandar intimações à D. Pedro para que ele retornasse a Portugal, pois o Brasil seria recolonizado. As elites brasileiras, influenciadas pelas idéias iluministas e já acostumadas a condição de não ser mais colônia, cooptaram D. Pedro para perto de si e começaram a agradá-lo com o objetivo de tornar o Brasil independente de Portugal.
Era uma boa troca para os dois lados (menos para o povo brasileiro). As elites davam a D. Pedro o trono de Imperador do Brasil e uma graninha (15 mil libras esterlinas!!) e, ele, apoiaria a elite para tornar o Brasil independente sem a necessidade de recorrer a força política do povo. Assim, os interesses do povão não seriam atendidos e as riquezas da elite não iriam ser distribuídas. Perceba: a luta de classes também se desenvolve ao imobilizar o inimigo.
De maio à setembro de 1.822 a Coroa Portuguesa e o “governo” de D. Pedro trocaram acusações até que em 7 de setembro, quando Pedrinho voltava de uma viagem amorosa junto à Marquesa de Santos recebeu uma carta dizendo que uma frota de navios teria saído de Portugal para buscá-lo. Irritado deu o “grito do Ipiranga” (da independência). Mas, não foi só esse grito que tirou o Brasil das mãos de Portugal. Tanto é que até 1.825, os portugueses não haviam aceito o fato. A situação só se resolveu com (outra) sugestão inglesa: o Brasil deveria pagar uma indenização à Portugal. Todos aceitaram, inclusive os brasileiros que não viam outra saída. Como o Brasil não tinha dinheiro (graças a D. João e D. Pedro) emprestou da Inglaterra. Nascia aí a tão falada Dívida Externa.
Desde 1817, os pernambucanos lutavam para se tornar independentes e autônomos. Eles queriam que Pernambuco tivesse suas leis, sem dever obediência ao rei, seja de Portugal ou o do Brasil. Havia pessoas que defendiam uma Republica no nordeste. Em 1817, a revolta pernambucana foi derrotada, mas a semente do FEDERALISMO continuou a crescer. Em 1821, vendo que as coisas se encaminhavam para o poder ficar concentrado nas mãos de D. Pedro I, os pernambucanos chegam a negociar a sua autonomia em separado com Portugal. As elites do RJ ficaram muito assustadas, tinham medo de que outras regiões quisessem se separar também. Em 1823, as elites do Rio procuram pacificar as coisas prometendo aos pernambucanos que o imperador não iria concentrar os poderes, mas estavam enganados. Em 1824, D. Pedro I impõe uma Constituição em que ele tem amplos poderes e a revolta estoura no NE. Liderados por Pernambuco, na Paraíba, no Rio Grande do Norte, no Ceara, e no Piauí a idéia era proclamar uma republica federalista em separado do Brasil. Como você vai ver, D. Pedro I manda tropas de mercenários para matar brasileiros no NE e mantém o país unificado. Mas pense... pagamos que preço para isso?
Conclusão: Para o povo, a independência não mudou nada! As condições de vida continuaram ruins e, pior, economicamente: a escravidão, o latifundismo, a monocultura e a dependência ao mercado externo eram os mesmos da época colonial. Aliás, como Brasil e Portugal não se falaram mais depois de tantas brigas, todo o comércio brasileiro caiu nas mãos dos ingleses que se aproveitaram da fraqueza da economia daqui para acumular mais capital às custas do Brasil. Agora a colônia estava “dependent” dos ingleses. Enfim, havia só mudado de mãos. O historiador Nelson Werneck Sodré escreveu que um país só deixa de ser colônia quando sua produção é destinada a seu próprio mercado interno. No Brasil, como até por volta de 1.860 – 1.870 a maioria da população era de escravos (não-consumidora), em 1.822, o país continuou a ser uma colônia econômica.

As maiorias dos países das Américas se tornaram independentes no século 19, mas o Brasil foi o único que continuou a seguir a forma de governo européia: a Monarquia. Por causa disso, o país era mal visto pelos seus vizinhos em todo século 19. Eles imaginavam que os europeus iriam reconquistá-los a partir daqui. Politicamente, o imperador D. Pedro I formou seu ministério com indivíduos da elite brasileira, e todos eles eram ou portugueses de nascimento ou – quando muito – filhos de portugueses nascidos no Brasil. Afinal: o governo independente era português? O Brasil estava realmente livre de Portugal? Acontece que a independência do Brasil foi a mais conservadora possível, ou seja, não se mexeu em nada que pudesse atacar os privilégios das elites donas de terras e comerciantes do país.