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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O processo de abolição da escravidão (1850 - 1888)

O fim da escravidão?

No Brasil, após 1.850, as várias mudanças feitas pelas elites começam a tornar capitalistas a economia e a sociedade do país. Semelhantemente, a escravidão não poderia coexistir com o capitalismo.
Desde a Revolução Francesa (1789-1799), a escravidão começou a ser vista como um sinal de atraso, de povos selvagens, bárbaros. No Brasil, até a metade do século XIX, quem desejava eliminá-la eram os ingleses que faziam uma enorme pressão sobre as autoridades brasileiras. Por que? A Inglaterra era o país mais industrializado da época e, por isso, produzia tanto que o capitalismo inglês já não tinha mais para onde crescer. Diversos países da Europa já estavam se industrializando, e não eram grandes consumidores dos produtos ingleses. Logo, era interessante para a Inglaterra que países grandes como o Brasil tivessem consumidores para seus produtos. Como os escravos não são consumidores, a mudança para o trabalho assalariado era urgente. Outros fatores: a concorrência entre o açúcar das Antilhas inglesas com o brasileiro (que era mais barato devido ao trabalho ser escravo); a necessidade de fixar a mão-de-obra africana no seu próprio continente (para produzir ferro, aço e metais preciosos às indústrias européias); e, a pressão sobre as tarifas de importação do Brasil (que vinham desde 1808/10 beneficiando os ingleses, mas em 1844 - com a tarifa Belisário, desbancou o comércio inglês no país) foram fundamentais para que o Parlamento inglês aprovasse em 1844 o Bill Arbedeen, lei esta que proibia o tráfico negreiro no mundo e condenava a prisão os infratores.
Assim, de tanta pressão feita pela Inglaterra, em 1850, o Império Brasileiro decretou o fim do tráfico negreiro com a Lei Euzébio de Queirós. A partir de então, não era permitida a entrada de navios que transportavam os escravos nos portos do Brasil. Porém, as elites aproveitaram esses 6 anos entre uma lei e outra para encher as fazendas de café, pois o comércio negreiro foi intensificado entre 1844 e 1.850. Depois recorreram ao Tráfico Interprovincial, em que os fazendeiros do decadente Norte/Nordeste vendiam seus escravos para as ricas fazendas do sudeste cafeeiro. Imagine qual era a reação dos escravos vendidos, ao perder, de novo, toda a sociabilidade, família, amigos, memória de vivência, etc .
Após 1865, e em especial, após o fim da Guerra do Paraguai (1870) em que muitos escravos rebeldes, que tinham sido mandados lá para morrer, voltando como heróis nacionais, começa a ser desenvolver uma intensa campanha na sociedade brasileira para o fim da escravidão. Porém, os fazendeiros cafeicultores do Vale do Paraíba e do Oeste paulista com medo de que a escravidão acabasse de repente, fizeram de tudo para enrolar o fim da escravidão, tal como algumas leis com uma aparência de “boas leis” para os escravos, mas na verdade eram formas de frear o fim da escravidão. A  Lei do Ventre livre dizia que um filho de mãe-escrava deveria nascer livre; mas, para pagar a comida, as roupas e a casa dele até quando tivesse idade para ganhar seu dinheiro, a criança deveria trabalhar até os 21 anos para o dono de sua mãe. A Lei dos  Sexagenários previa que o escravo idoso ficasse livre assim que atingisse 60 anos. Mas quase nenhum escravo durava tanto. Além de que o idoso deveria trabalhar mais 3 anos para pagar o seu dono. Os Códigos criminais da época começam a tratar o escravo como sujeito e não mais como objeto de produção. Era claro o intuito de incriminar os cativos transgressores da ordem.
Outro fator importante para essa mudança social no país foi a resistência escrava, principalmente a partir de 1860, quando já é sentida a proximidade da abolição. Embora a HT não conte essa parte da História, o medo que os fazendeiros tinham de um levante de escravos era enorme, pois os cativos já percebiam que a hora de sua liberdade estava chegando. Tornou-se comum a violência do sujeito escravo contra fazendeiros e feitores, e que às vezes levara-os à morte. A partir de 1880, quando já era evidente a abolição, os escravos começaram a trocar os crimes de sangue pela fuga. Por outro lado, os fazendeiros, preocupados com a ausência de mão-de-obra, começaram a “conceder benefícios” para os quais os escravos lutavam, além de diminuir seus castigos. A intenção era segurar os trabalhadores nas fazendas após a abolição. Em alguns locais (como na Zona da Mata Mineira, a Carta de Alforria era acompanhada por um contrato de trabalho).
A idéia dos fazendeiros que estavam próximos ao rei era de acabar com a escravidão somente por volta de 1892/93. Em 1.888 existiam somente 5% de escravos no país, concentrados nas áreas cafeeiras de S. Paulo. Em maio deste ano, quando D. Pedro II viajava para cuidar de sua saúde, a princesa Isabel recebeu do Parlamento uma lei que abolia a escravidão, assinou e a– querendo criar mais um herói – a colocou como salvadora dos escravos. Porém ela só libertou os 700.000 que ainda eram escravos.
Perceba: a História das elites despreza as lutas dos escravos pela própria libertação no final do século XIX com vistas a criar no imaginário popular uma imagem do negro como um ser inferior - sempre a espera do homem branco para salvá-lo da barbárie e moralizá-lo. Infelizmente é assim até hoje...
Especialmente em S. Paulo, os ex-escravos negros, recém saídos das fazendas de café não foram integrados ao mercado de trabalho livre nas fazendas ou nas cidades. Devido ao racismo eles não tiveram chance de aprender ou exercer outra profissão. Sendo então excluídos da sociedade, acabaram tendo que ir para as “favelas”, onde havia local para construir moradias simples e baratas como barracos.