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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O movimento de 1930: fatos, visões e discurso ideológico

A “Revolução” de 30 ou o MOVIMENTO de 1930


A revolução de 30 não é uma revolução propriamente dita, mas foi chamada de “revolução” por alguns historiadores somente porque seus participantes vitoriosos (a Aliança Liberal e os tenentes) se diziam “revolucionários”. Em uma outra visão (Boris Fausto – historiador) a “revolução” foi um conflito entre as elites que rearranjou o poder entre as elites.
No entanto, a maioria dos historiadores cometera um grave erro de análise ao analisar a revolução olhando fatos que aconteceram depois de 1930. Na maior parte das análises coloca-se os “estados” como “agentes da revolução”, i.e., da própria História. Assim teria havido uma luta de RS, MG e PB contra a hegemonia política de SP (?). Essa visão é enganosa, pois a história não é feita por estados, mas sim por pessoas, ou melhor, por grupos de pessoas. Os vencedores da revolução criaram uma visão/versão da “revolução de 30” e boa parte dos historiadores aceitou essa visão mitológica da História.

Mas 1930 foi ou não uma revolução?

A historiografia oficial, diz que foi uma revolução, mas outras linhas de análise dizem que não foi revolução, baseado em seus conceitos de “Revolução”. 
Mas, o que é uma revolução? Há vários pontos de vista sobre esse conceito:
Para os marxistas: modificações econômicas [base/infra-estrutura] da sociedade, que se modificada, modifica toda a sociedade [super-estrutura] até chegar ao indivíduo. Por isso, os marxistas dizem que 1930 não foi revolução,  pois não mudou a estrutura do país [economia]
No entanto, mesmo sem modificações econômicas, houve mudanças importantes em aspectos políticos no pós-1930:
  • Estado centralizado;
  • Mudança de projeto econômico para o Brasil (Industrialização); mas, sem abandonar a cafeicultura;
  • O "povo" passa a ser um ator político, buscando o atendimento a seus interesses; mesmo que seja para ser atraído (não manipulado!) para projetos políticos que servem para atender aos interesses de outros setores da sociedade.

Mas, a questão fica em aberto... foi ou não revolução?

            "Façamos a revolução antes que o povo a faça". Antonio Carlos da Aliança Liberal de MG teria dita esta frase. Vamos pensar um pouco sobre ela: podemos perceber que existia uma possibilidade de existir uma revolução popular, ou seja, o povo estava se mobilizando, e podia lutar por seus interesses. O Partido Comunista do Brasil (PCB), apesar de não ser muito numeroso, esteve envolvido, pois mesmo sem muitos "seguidores" poderia fazer muito "barulho". O período entre 1928 - 1932 é marcado por lutas políticas muito intensas.
           

Um racha no governo da República Velha

Em 1928, a burguesia Industrial rompe com a República Velha, e funda a CIESP (um sindicato patronal que atua no sentido de unificar os discursos e a atuação da grande burguesia industrial de SP e RJ, chegando inclusive a punir aqueles empresários que não aceitavam suas metas com boicotes)e é ligada ao CIB (Centro Industrial Brasileiro) no RJ.
Em 1928, a CIESP decide criar um projeto político para o Brasil baseado na industrialização e nos moldes europeus de desenvolvimento. Colocava-se como o único caminho para o desenvolvimento, no modelo de industrialização “ARTIFICIAL”: com matérias-primas nacionais e importadas. (Obs. : desde 1870 discute-se o modo de industrialização, o “NATURAL”, onde as matérias-primas seriam nacionais e é defendida pela grande burguesia agrária; e a “ARTIFICIAL”, defendido pela burguesia industrial).
Esse projeto envolvia também a derrubada da República Velha e a entrada do capital estrangeiro na industrialização tecnológica no Brasil. Isso seria para “adequar/adaptar” a economia daqui ao capitalismo, chamando as empresas multinacionais para o Brasil. Oferecendo-se mão-de-obra barata - baseado no grande crescimento populacional e no êxodo rural - em troca do investimento estrangeiro.
Hoje sabemos que esse projeto falhou! Porém eles não perceberam que haveria uma Revolução micro-eletrônica com o enorme avanço da inovação tecnológica. Assim, a necessidade de mão-de-obra sendo substituída por máquinas acabou com esse projeto nos anos 1990.


Os projetos para o país

            Existem neste período mais dois projetos para o Brasil: um dos tenentes e outro do PCB. O projeto descrito no texto acima foi “abraçado” pela Aliança Liberal.
Os tenentes lutavam por melhorias para os operários e fim da corrupção eleitoral e possuíam uma “visão de mundo” carregada pelo fato de serem do exército.
O BOC – Bloco Operário e Camponês (orgão eleitoral do PCB, especialmente em SP - reduto dos anarquistas),  defendia: um projeto que seria uma "luta" entre a industrialização com controle nacional, em que os operários tomariam “conta“ das fábricas (gestão operária) em confronto com o “imperialismo” (representados no Brasil pelos setores da burguesia agrária e comercial ligados ao comércio exportador de café); além disso: realização de uma reforma agrária e o rompimento com o imperialismo. Para marxistas-leninistas seguidores do Komintern (órgão da URSS que agregava e ordenava a linha política dos partidos comunistas do mundo todo) isso seria correspondente a “revolução democrático – burguesa”, ou melhor, uma "etapa" essencial para o socialismo.
No decorrer das lutas enter 1928-1930 havia 2 itens comuns aos 3 projetos: a República Velha deveria cair e a liderança de Luis Carlos Prestes.



O encadeamento dos fatos

A burguesia industrial se junta à Aliança Liberal - união das oligarquias de RS, PB e MG, representados por Getúlio Vargas. Enquanto isso, Washington Luiz quebra a “política do café-com-leite”, indicando outro paulista, Júlio Prestes, para presidência.
            Em 1929 ocorre o “crack” da bolsa de NY. No Brasil o mercado do café era basicamente nos países capitalistas centrais (EUA e Europa). Além disso, em 1905, em Taubaté/SP ocorre uma reunião entre os cafeicultores, representantes dos EUA e da Inglaterra. Estes pedem aos cafeicultores para o Brasil produzir menos café, mas não são atendidos, pois os norte-americanos pagam as safras excessivas de café com pagamento à vista. A crise de 1929 enfraquece a elite cafeeira, criando uma crise econômica, pois a maioria da receita do governo vinha do café.
            Nesse período, o New York Times dos EUA informa que em SP e no RJ estavam acontecendo grandes manifestações de massa comandadas pelo PCB. Com fontes muito questionáveis esse jornal escreve que o PCB incentivava a população às manifestações, estando no meio delas, mas não comandanda-as. O jornal também se "esquece" dos anarquistas, muito fortes em SP.
            O BOC, nesse período tenta convencer os operários de SP em aceitar o comunismo e a liderança sindical-partidária do PCB. Um jornal de classe média "O Combate" vai oferecer ao BOC uma coluna semanal que serviria para atacar os anarquistas, pois "O Combate"  era um jornal grande e diário. Por outro lado, a principal voz do anarquismo em SP é o jornal "A Plebe” de difícil circulação, por se tratar de um jornal operário. Esta brigando contra o BOC vai rachar o movimento operário em SP-RJ.
Com “sua” coluna o BOC chama os operários para aderirem ao PCB e, em seguida, tenta difundir a idéia da revolução socialista. Quando começa a difundir essa idéia, a direção do jornal “O Combate" cancela a coluna. Isso cria uma radicalização das lutas entre anarquistas e comunistas com vantagem para estes com graves conseqüências para os operários durantes o movimento de 1930.
            Em 1929, Júlio Prestes ganha as eleições, por causa da corrupção do sistema eleitoral, mas não chega a assumir, pois em 30 de outubro de 1930, W. Luiz é deposto, antes de passar lhe o poder. Nesse momento ocorrem lutas armadas no RJ, feitas pelos tenentes e com apoio das grandes manifestações populares.



O discurso de poder: ocultação da História e da política

O que é “Discurso de poder”?
Uma versão da História do movimento de 1930 e da p´ropria História do Brasil criada pelos “vencedores” de 1930 durante o governo Vargas que envolve em uma linha de análise progressiva desde o período colonial até o futuro a partir da idéia de progresso para sermos uma nação capitalista forte. Criou-se noções-chave sobre a História que perduram até hoje.
Essas noções-chave foram as seguintes:
  • 1930 foi um marco divisor da história: antes de 1930 era atrasado e agrário; no pós-1930 tornou-se avançado, industrializado e moderno;
  • Não havia várias propostas para o país, mas apenas um “bloco unitário e monolítico” no processo "revolucionário";
  • Haveria um Estado-sujeito que faria a História e não os grupos sociais lutando por interesses antagônicos;
  • Não houve participação popular em 1930. A intenção era apagar a memória histórica dos trabalhadores no processo;
  • Foi uma "Revolução".



Crítica sobre o “discurso de poder”:

a) 1930 não foi um marco divisor da história do Brasil. O processo de industrialização começou em 1870, e não somente depois de 1930. Ou como diz outra versão, durante a Segunda Guerra o Brasil não podia importar da Europa e começou a produzir por si próprio, industrializando-se. É a teoria da “substituição de importações” que contém muitas falhas;
b) Existiam vários projetos para o futuro do país, não somente um “bloco unitário” e sem divergências entre si. Essa ação apaga a participação e os projetos dos tenentes e do BOC. Além disso, procura criar a noção de que todo mundo ficou satisfeito com a “Revolução”. Essa idéia se mantém durante todo o século XX e é muito forte até hoje.
c) A noção do Estado-Sujeito é uma idéia positivista que diz "o Estado deve se antecipar às exigências sociais". Isso significaria que 1930 criou um Estado capaz de se antecipar aos desejos da sociedade (esse Estado conseguiria deixar todo mundo feliz e satisfeito com sua situação, sem que ninguém precisasse reivindicar seus interesses). Na República Velha as questões sociais eram tratadas como "questão de polícia". Essa mudança de visão é um meio de manter a ordem capitalista ("ORDEM E PROGRESSO"), envolvendo a tentativa de atrair o povo para um projeto político-econômico elitista. A idéia de Estado-sujeito é demonstrada em uma comemoração cívica de Vargas no governo em 1931: as bandeiras dos estados brasileiros são retiradas de seus mastros e queimadas no chão, em seguida, é hasteada a bandeira do Brasil. Isso representou o fim do federalismo no Brasil (país estranho, pois mantém o nome “federalista” até hoje). Houve também uma nova constituição por que não se poderia continuar com uma feita pelo regime político derrubado. Havia um desejo de eleições limpas no país, mas que só aconteceriam em 1946, depois que Vargas foi retirado do poder em 1945.

d) A participação popular em 1930 é interpretada como "nula" até hoje - o que é uma conseqüência do discurso de poder. O povo participou e participa da história, não apenas observando tudo o que estava acontecendo passivamente. Tirando a participação do povo, colocou-se os tenentes como "heróis" da “Revolução” de 1930 para apagar a participação popular.