Governo Vargas democrático (1951 – 1954)
Durante o governo Dutra, Getúlio ficou longe das disputas
políticas da capital (RJ). O ex-ditador havia sido eleito senador em diversos
estados, mas preferiu ficar no seu estado natal (RS). Em 1951 lançou-se a
candidato para o cargo a presidência da república. Ganhou estourado... a UDN
torceu o nariz. O ódio a Vargas e sua forma “tendenciosa” de fazer política
deixava os “liberais” com uma enorme vontade de atacar Getúlio e uma palavrinha
na garganta: “golpe!”.
O governo democrático de Vargas foi marcado por sua
posição nacionalista em relação ao crescimento da influencia do capital
estrangeiro nos países subdesenvolvidos como o Brasil. Vargas apoiava uma
política de nacionalização e estatização dos setores básicos da economia e de
melhorias nas condições de vida daqueles aos quais pretendia montar sua base
política: os trabalhadores urbanos. Muito agradecidos a Getúlio esse grupo
social definia interesses conjuntos e aspirações de melhorias para si. Vargas
percebia isso.
Em relação ao nacional-estatismo,
Vargas incentivou uma tendência que vinha crescendo na sociedade brasileira: o
nacionalismo desenvolvimentista ou estatista. Vejamos o que é isso:
a) Nacionalismo
é a defessa dos interesses da Nação acima de interesses de grupos ou países
estrangeiros. Essa ideologia era forte nas décadas de 1940 e 1950, mas perdeu
força nas décadas seguintes.
b) Estatismo
é a idéia de que as mudanças sociais e econômicas devem ser feitas pelo alto,
i. e., pelo Estado. Este deve assumir a vanguarda das ações sócio-econômicas a
frente da sociedade e de seus grupos sociais. Perceba que essa idéia é
contrária ao que os liberais defendem.
c) Desenvolvimentismo
é uma ideologia que foi pensada e sistematizada a partir da década de 1950 pela
CEPAL (Centro de Estudos Para a América Latina), que abrangia diversos
intelectuais das áreas de economia do subcontinente. O desenvolvimentismo busca
soluções para superar a condição de subdesenvolvimento presente nos países
latino-americanos. Isso seria possível fazendo esses países alcançarem o nível
de industrialização dos países desenvolvidos. Assim, para o pensamento
desenvolvimentista o importante é industrializar os países rapidamente. As economias
e sociedades da América Latina eram vistas como atrasadas por causa de sua
dependência ao mercado internacional na venda de matérias-primas
não-industrializadas (herança colonial). Assim, era urgente industrializar.
Na
década de 1940 uma discussão acalorou o país: as reservas de petróleo deveriam
ser entregues aos capitalistas estrangeiros ou não. A posição nacionalistas era
forte. Diversos intelectuais discutiram a questão. Também nas ruas das grandes
cidades pessoas comuns defendiam a criação de uma empresa brasileira de
exploração de petróleo. Discutia-se também a questão da energia elétrica, dos
transportes, da educação de qualidade, mesmo que sem muita profundidade.
Aproveitando-se
da onda nacionalista, Vargas criou em 1953 a Petrobrás. Monopolizava as
explorações de petróleo e deixava para os estrangeiros o refino e a
distribuição. Muitos acharam que ainda era entregar muito para os “gringos”.
Mas Vargas, mesmo nacionalista, queria a presença do capital estrangeiro e a
amizade de governos como os dos EUA no Brasil. O que ele tentava fazer era
balancear as posições nacionalistas com os interesses estrangeiros. Não por
acaso foi realizada uma parceria na área militar entre o Brasil e o “grande
irmão” do norte em 1952 que previa intercâmbio de treinamentos, técnicas e
estratégias de guerra, cursos no exterior etc. Os militares brasileiros,
formados numa escola francesa, começavam a se ligar aos EUA.
Se
você acha que o nacionalismo-estatista de Vargas não era o bastante para a UDN
se bater contra o presidente, você errou: desde o início de seu governo Vargas
teve que aguentar as ofensas políticas (o chamava de “fascista”, “hipócrita”,
“demagogo”, “manipulador” etc.). Seu maior inimigo era o jornalista Carlos
Lacerda, proprietário do jornal carioca Tribuna da Imprensa e o Jornalista
Roberto Marinho de “O Globo” ambos do RJ. Todos os dias, em suas páginas
descarregavam a raiva da frustada UDN na figura de Vargas.
A
partir de 1952 os trabalhadores começaram campanhas salariais. Houve repressão
policial e Vargas decidiu mexer no Ministério do Trabalho. Chamou para
assumi-lo o então presidente do PTB e seu maior herdeiro político: João
Belchior Marques Goulart. Jango, como era apelidado na política era estancieiro
de terras no estado de Vargas, o RS e vinha de uma tradição sindical que nasceu
com a República democrática (1945-1964). A UDN já ficou com a pulga atrás da
orelha. Olhava Jango como um continuador da obra de Vargas.
Logo
em suas primeiras ações como ministro Jango chamou representantes de grevistas
de 1952 para negociar. Houve acordo, com atendimento a muitas reivindicações
dos trabalhadores e a greve acabou. A UDN ficou irritada. Os ataques seriam
também contra Jango.
Em
1953 estourou uma greve geral em SP e RJ. Foi “a greve dos 300 mil”. As duas
capitais ficaram semanas paradas devido ao peso da greve. A organização fugiu
do controle dos sindicatos controlados pelo Estado. O PCB estava por trás. Até
agremiações anarquistas ressurgiram das cinzas. Jango não tinha controle sobre
o desenrolar da greve.
A
UDN e os setores conservadores da sociedade, inclusive as Forças Armadas,
exigiam o tratamento que trabalhadores deveriam ter nesses casos: porrada! Mas
Jango era um ministro do trabalho diferente: chamou as lideranças sindicais
para negociar. Pronto, os setores conservadores acharam aquilo a “gota d’água”.
Diziam: “onde já se viu sindicalistas sendo atendidos na sede do governo com o
mesmo respeito que nós”. Isso é comunismo!! Absurdo!! Em fevereiro militares
lançam o Manifesto dos Coronéis,
entre seus assinantes estavam Golbery do Couto e Silva e Silvio Frota. Você
ainda vai ouvir falar destas “figuras”...
A
pressão sobre Vargas foi tão grande que ele decidiu retirar Jango de seu posto.
Mas ao mesmo tempo, para não perder sua base de sustentação deu os 100% que os
trabalhadores grevistas pediam. Na contabilidade geral estava 1 X 1, mas a UDN
e os militares não aceitaram.
Vargas
– acuado – perdia a sua base de sustentação política na burguesia. Seria
possível governar só com apoio da população? E as alianças desde 1930? Numa
conversa no palácio do Catete disse a um assessor que “alguém tinha que dar um
jeito no Lacerda”. Muito provavelmente Vargas se referia a possibilidade de
alguém pró-governo, como o jornalista Samuel Wainer discutir com seu Última Hora na imprensa com seu maior
oposicionista). O segurança pessoal de Vargas Gregório Bezerra “entendeu o
recado”. Contratou um matador para dar cabo de Lacerda. Em 05 de agosto de
1954, o pistoleiro tentou alvejar Lacerda quando este saia de uma reunião num
Clube da Marinha. Matou um major da FAB (Força Área Brasileira) e feriu
Lacerda. Preso e pressionado o “matador” falou quem o tinha contratado. Era a
“gota d’água”.
Em
23 de agosto 30 generais pedem a renúncia de Vargas. Entre eles estava Castelo
Branco. Os capitalistas estrangeiros também entraram na briga para
desestabilizar o governo Vargas. Para a direita, daquele jeito – atendendo as
reivindicações do povo – não dava para governar o país. Também o chamavam de
“assassino” e “gangster” para baixo! Pressionado pela eminência de um golpe que
o derrubaria, Getúlio comete suicídio em 25 de agosto de 1954. Joga assim seu
cadáver nas mãos dos oposicionistas. Afinal, eles não queriam a “cabeça de
Getúlio”?
Vargas
deixou um bilhete escrito à mão no qual ponderava suas ações como governante, criticava os grupos que queriam entregar as riquezas do Brasil aos estrangeiros e terminava com uma mensagem "falhei...". A família achou o bilhete e não gostou do que o ex-presidente escreveu.
A família, junto com membros do PTB, reintrepretaram o bilhete criando a "Carta Testamento de Getúlio Vargas"... como se fosse ele que havia escrito!!! Datilografada e com a assinatura de Getúlio tremida, esta diz que a situação do país é culpa das pressões vindas dos interesses
multinacionais; diz que lutou com todas as
suas forças para defender os interesses do Brasil e - reforçando a imagem de "pai dos pobres" - que saía “da vida para
entrar para a História”... dramático, né?
Rapidamente
a notícia do final trágico de Vargas correu as ruas das principais cidades.
Houve manifestações em todas as grandes cidades brasileiras, a maioria com atos
de violência da população contra os inimigos de Vargas: no RJ, a embaixada dos
EUA foi depredada a paus e pedras, carros da Tribuna da Imprensa foram
queimados; Lacerda teve que fugir do RJ...
A
direita reacionária (UDN, militares golpistas, empresas estrangeiras, burguesia
nacional e outros) estava armando um golpe
de Estado. Esperavam Vargas deixar o poder para assumi-lo. Só não esperavam
a reação a morte de Getúlio. Ficaram sem saber o que fazer... muitos fugiram,
se esconderam. Nos meses seguintes, o tom das críticas sumiu. Getúlio era agora
“O grande estadista que o país perdia”. Se enterro foi disputadíssimo. A
população muito chorou sua morte. Neste ouvia-se culparem Lacerda, os EUA, “O
Globo” entre outros.
Até o PCB tomou porrada! O “partidão” vinha difamando
Getúlio, chamando-o de “Chefe do imperialismo que colocava o Brasil nas mãos
das potências estrangeiras” e daí para mais. Quando veio a notícia de sua
morte, em Porto Alegre um carro do jornal do partido “A Classe Operária” foi
incendiado.
No lugar de Vargas, seu vice Café Filho assume a
presidência. Pessoalmente apoiara os golpistas. Isso iria dar muito pano para
manga ainda...