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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Governo Vargas democrático (1951 – 1954)

Governo Vargas democrático (1951 – 1954)

            Durante o governo Dutra, Getúlio ficou longe das disputas políticas da capital (RJ). O ex-ditador havia sido eleito senador em diversos estados, mas preferiu ficar no seu estado natal (RS). Em 1951 lançou-se a candidato para o cargo a presidência da república. Ganhou estourado... a UDN torceu o nariz. O ódio a Vargas e sua forma “tendenciosa” de fazer política deixava os “liberais” com uma enorme vontade de atacar Getúlio e uma palavrinha na garganta: “golpe!”.
            O governo democrático de Vargas foi marcado por sua posição nacionalista em relação ao crescimento da influencia do capital estrangeiro nos países subdesenvolvidos como o Brasil. Vargas apoiava uma política de nacionalização e estatização dos setores básicos da economia e de melhorias nas condições de vida daqueles aos quais pretendia montar sua base política: os trabalhadores urbanos. Muito agradecidos a Getúlio esse grupo social definia interesses conjuntos e aspirações de melhorias para si. Vargas percebia isso.
            Em relação ao nacional-estatismo, Vargas incentivou uma tendência que vinha crescendo na sociedade brasileira: o nacionalismo desenvolvimentista ou estatista. Vejamos o que é isso:
a)    Nacionalismo é a defessa dos interesses da Nação acima de interesses de grupos ou países estrangeiros. Essa ideologia era forte nas décadas de 1940 e 1950, mas perdeu força nas décadas seguintes.
b)    Estatismo é a idéia de que as mudanças sociais e econômicas devem ser feitas pelo alto, i. e., pelo Estado. Este deve assumir a vanguarda das ações sócio-econômicas a frente da sociedade e de seus grupos sociais. Perceba que essa idéia é contrária ao que os liberais defendem.
c)    Desenvolvimentismo é uma ideologia que foi pensada e sistematizada a partir da década de 1950 pela CEPAL (Centro de Estudos Para a América Latina), que abrangia diversos intelectuais das áreas de economia do subcontinente. O desenvolvimentismo busca soluções para superar a condição de subdesenvolvimento presente nos países latino-americanos. Isso seria possível fazendo esses países alcançarem o nível de industrialização dos países desenvolvidos. Assim, para o pensamento desenvolvimentista o importante é industrializar os países rapidamente. As economias e sociedades da América Latina eram vistas como atrasadas por causa de sua dependência ao mercado internacional na venda de matérias-primas não-industrializadas (herança colonial). Assim, era urgente industrializar.

Na década de 1940 uma discussão acalorou o país: as reservas de petróleo deveriam ser entregues aos capitalistas estrangeiros ou não. A posição nacionalistas era forte. Diversos intelectuais discutiram a questão. Também nas ruas das grandes cidades pessoas comuns defendiam a criação de uma empresa brasileira de exploração de petróleo. Discutia-se também a questão da energia elétrica, dos transportes, da educação de qualidade, mesmo que sem muita profundidade.
Aproveitando-se da onda nacionalista, Vargas criou em 1953 a Petrobrás. Monopolizava as explorações de petróleo e deixava para os estrangeiros o refino e a distribuição. Muitos acharam que ainda era entregar muito para os “gringos”. Mas Vargas, mesmo nacionalista, queria a presença do capital estrangeiro e a amizade de governos como os dos EUA no Brasil. O que ele tentava fazer era balancear as posições nacionalistas com os interesses estrangeiros. Não por acaso foi realizada uma parceria na área militar entre o Brasil e o “grande irmão” do norte em 1952 que previa intercâmbio de treinamentos, técnicas e estratégias de guerra, cursos no exterior etc. Os militares brasileiros, formados numa escola francesa, começavam a se ligar aos EUA.
Se você acha que o nacionalismo-estatista de Vargas não era o bastante para a UDN se bater contra o presidente, você errou: desde o início de seu governo Vargas teve que aguentar as ofensas políticas (o chamava de “fascista”, “hipócrita”, “demagogo”, “manipulador” etc.). Seu maior inimigo era o jornalista Carlos Lacerda, proprietário do jornal carioca Tribuna da Imprensa e o Jornalista Roberto Marinho de “O Globo” ambos do RJ. Todos os dias, em suas páginas descarregavam a raiva da frustada UDN na figura de Vargas.
A partir de 1952 os trabalhadores começaram campanhas salariais. Houve repressão policial e Vargas decidiu mexer no Ministério do Trabalho. Chamou para assumi-lo o então presidente do PTB e seu maior herdeiro político: João Belchior Marques Goulart. Jango, como era apelidado na política era estancieiro de terras no estado de Vargas, o RS e vinha de uma tradição sindical que nasceu com a República democrática (1945-1964). A UDN já ficou com a pulga atrás da orelha. Olhava Jango como um continuador da obra de Vargas.
Logo em suas primeiras ações como ministro Jango chamou representantes de grevistas de 1952 para negociar. Houve acordo, com atendimento a muitas reivindicações dos trabalhadores e a greve acabou. A UDN ficou irritada. Os ataques seriam também contra Jango.
Em 1953 estourou uma greve geral em SP e RJ. Foi “a greve dos 300 mil”. As duas capitais ficaram semanas paradas devido ao peso da greve. A organização fugiu do controle dos sindicatos controlados pelo Estado. O PCB estava por trás. Até agremiações anarquistas ressurgiram das cinzas. Jango não tinha controle sobre o desenrolar da greve.
A UDN e os setores conservadores da sociedade, inclusive as Forças Armadas, exigiam o tratamento que trabalhadores deveriam ter nesses casos: porrada! Mas Jango era um ministro do trabalho diferente: chamou as lideranças sindicais para negociar. Pronto, os setores conservadores acharam aquilo a “gota d’água”. Diziam: “onde já se viu sindicalistas sendo atendidos na sede do governo com o mesmo respeito que nós”. Isso é comunismo!! Absurdo!! Em fevereiro militares lançam o Manifesto dos Coronéis, entre seus assinantes estavam Golbery do Couto e Silva e Silvio Frota. Você ainda vai ouvir falar destas “figuras”...
A pressão sobre Vargas foi tão grande que ele decidiu retirar Jango de seu posto. Mas ao mesmo tempo, para não perder sua base de sustentação deu os 100% que os trabalhadores grevistas pediam. Na contabilidade geral estava 1 X 1, mas a UDN e os militares não aceitaram.
Vargas – acuado – perdia a sua base de sustentação política na burguesia. Seria possível governar só com apoio da população? E as alianças desde 1930? Numa conversa no palácio do Catete disse a um assessor que “alguém tinha que dar um jeito no Lacerda”. Muito provavelmente Vargas se referia a possibilidade de alguém pró-governo, como o jornalista Samuel Wainer discutir com seu Última Hora na imprensa com seu maior oposicionista). O segurança pessoal de Vargas Gregório Bezerra “entendeu o recado”. Contratou um matador para dar cabo de Lacerda. Em 05 de agosto de 1954, o pistoleiro tentou alvejar Lacerda quando este saia de uma reunião num Clube da Marinha. Matou um major da FAB (Força Área Brasileira) e feriu Lacerda. Preso e pressionado o “matador” falou quem o tinha contratado. Era a “gota d’água”.
Em 23 de agosto 30 generais pedem a renúncia de Vargas. Entre eles estava Castelo Branco. Os capitalistas estrangeiros também entraram na briga para desestabilizar o governo Vargas. Para a direita, daquele jeito – atendendo as reivindicações do povo – não dava para governar o país. Também o chamavam de “assassino” e “gangster” para baixo! Pressionado pela eminência de um golpe que o derrubaria, Getúlio comete suicídio em 25 de agosto de 1954. Joga assim seu cadáver nas mãos dos oposicionistas. Afinal, eles não queriam a “cabeça de Getúlio”?
Vargas deixou um bilhete escrito à mão no qual ponderava suas ações como governante, criticava os grupos que queriam entregar as riquezas do Brasil aos estrangeiros e terminava com uma mensagem "falhei...". A família achou o bilhete e não gostou do que o ex-presidente escreveu. 
A família, junto com membros do PTB, reintrepretaram o bilhete criando a "Carta Testamento de Getúlio Vargas"... como se fosse ele que havia escrito!!! Datilografada e com a assinatura de Getúlio tremida, esta diz que a situação do país é culpa das pressões vindas dos interesses multinacionais; diz que lutou com todas as suas forças para defender os interesses do Brasil e - reforçando a imagem de "pai dos pobres" - que saía “da vida para entrar para a História”... dramático, né?
Rapidamente a notícia do final trágico de Vargas correu as ruas das principais cidades. Houve manifestações em todas as grandes cidades brasileiras, a maioria com atos de violência da população contra os inimigos de Vargas: no RJ, a embaixada dos EUA foi depredada a paus e pedras, carros da Tribuna da Imprensa foram queimados; Lacerda teve que fugir do RJ...
A direita reacionária (UDN, militares golpistas, empresas estrangeiras, burguesia nacional e outros) estava armando um golpe de Estado. Esperavam Vargas deixar o poder para assumi-lo. Só não esperavam a reação a morte de Getúlio. Ficaram sem saber o que fazer... muitos fugiram, se esconderam. Nos meses seguintes, o tom das críticas sumiu. Getúlio era agora “O grande estadista que o país perdia”. Se enterro foi disputadíssimo. A população muito chorou sua morte. Neste ouvia-se culparem Lacerda, os EUA, “O Globo” entre outros.
            Até o PCB tomou porrada! O “partidão” vinha difamando Getúlio, chamando-o de “Chefe do imperialismo que colocava o Brasil nas mãos das potências estrangeiras” e daí para mais. Quando veio a notícia de sua morte, em Porto Alegre um carro do jornal do partido “A Classe Operária” foi incendiado.

            No lugar de Vargas, seu vice Café Filho assume a presidência. Pessoalmente apoiara os golpistas. Isso iria dar muito pano para manga ainda...