Total de visualizações de página

terça-feira, 28 de outubro de 2014

O “day after” das eleições 2014: cai a máscara da tolerância paulista!



O “day after” das eleições 2014: cai a máscara da tolerância paulista!

A maior arma do dominador é a mente do dominado” - Steve Biko.



            Vendo o resultado das eleições 2014 para presidente da República não pude deixar de imaginar que na madrugada e no dia seguinte, segunda-feira, choveriam na internet demonstrações da falta de educação e dos preconceitos que as elites e a classe média de São Paulo sempre revelam quando contrariadas. Isso é o que o sociólogo Boaventura de Sousa Santos chama de “multiculturalismo reacionário”.
            As camadas mais altas da sociedade paulistana e a classe média quase sempre são assim: o índio é “respeitado” em sua cultura até o momento em que seu ritual, costume ou crença bate a porta dessas classes. Aí, a máscara do respeito à diversidade cultural cai e a verdadeira face reacionária, racista e etnocêntrica vem à tona.
Lembram quando recentemente a presidente Dilma foi vaiada na abertura da Copa do Mundo em São Paulo?
Segundo o jornalista Juca Kfouri, a vaia veio dos setores mais caros do estádio em Itaquera e, a elite paulistana/classe média fez ali uma enorme demonstração de sua falta de educação e desrespeito à democracia, pois trata-se de uma pessoa eleita pelo voto democrático (e não de um ditador, por exemplo).
Agora, com os resultados das eleições 2014 novamente aparecem esses e outros fantasmas – justamente na internet, espaço onde as pessoas se escondem atrás de “nicks” e da ausência de contato real com as outras.
Então vejamos alguns absurdos que foram difundidos e as burrices que eles demonstram:
1°) achar um absurdo que uma região tenha decidido uma eleição e fazer daí um motivo para comentários racistas, bairristas e de preconceitos cultural e social; o que essa atitude não vê é que em eleições sempre há a possibilidade disso ocorrer e, só estamos comentando isso, por que os dados estatísticos das eleições 2014 são tão detalhados que podemos ver quem venceu até em bairros, em zonas eleitorais etc. Mas, pergunta-se: se não tivéssemos esses dados, como estaríamos reclamando disso? Então só há a informação de que o nordeste decidiu nestas eleições... em outras, que podem ter ocorrido coisa parecida mas, nem dados temos...
2°) falar que o estado de São Paulo deveria se separar do resto do país (relembrando o fracassado separatismo do movimento constitucionalista de 1932...) por que votou em “X” e “Y” ganhou; atitude que revela um enorme desconhecimento histórico-geográfico: São Paulo sozinho não tem matérias-primas para se industrializar ou manter os níveis atuais de industrialização; além disso, como centro do sistema capitalista no país, São Paulo explora outras regiões sugando sua riqueza material e intelectual para as empresas e universidades do estado; se fosse outro país, isso não ocorreria com tanta facilidade e São Paulo disputaria esses capitais com outros centros capitalistas;
 3°) falar que os nordestinos votam em partido X e depois vem para São Paulo governado pelo partido Y; desconhecimento histórico-geográfico absurdo: os nordestinos não vieram para São Paulo! Foi a “Era Vargas” que, buscando incentivar a industrialização e auxiliar a burguesia industrial – ao mesmo tempo em que tentava enfraquecer o coronelismo – chamou as pessoas do nordeste para São Paulo. Isso mesmo, o governo levava as pessoas para São Paulo. Não foram os nordestinos que quiseram ir e foram (como pensa a ignorante classe média de São Paulo!); houve sim uma política estatal. Outro detalhe, o maior fluxo migratório do Brasil já não é mais do nordeste para São Paulo, mas do nordeste para a Amazônia e São Paulo tem hoje mais fluxo de pessoas saindo do que entrando;
4°) Achar que a democracia só é válida quando lhe convém; atitude típica do individualismo burguês dessa sociedade consumista-alienada em que vivemos: o pragmatismo dessa ideia está presente na visão de que a democracia só é boa se os pobres (que são taxados de “povinho”, “analfabetos”, “burros” e outras calamidades) votarem no mesmo candidato que a classe média faz... Assim, pensar diferente é absurdo e... hum... hum... isso beira o fascismo!!! AAAAAAAAH!!! Já ia me esquecendo: a classe média acha que o povo não pensa, e é apenas “massa de manobra”... mas, ela própria NÃO percebe o quanto é “PAPAGAIO DE TELEJORNAL” e da (podre) “revista semanal”!!!
5°) O pior é quando vemos “professores” (não dá pra chamá-los de educadores...) que reproduzem tudo isso.. e, veja que, essas excrescências são combatidos nas escolas de São Paulo pelas políticas que o próprio PSDB aplica. A estes “professores” só tenho a dizer: vocês estão fazendo um desserviço para a educação. Saiam da sala de aula!!!
Por fim, há centenas de outras imbecilidades que os “menestréis” da classe média desfilam, demonstrando mais ainda sua intolerância com o “outro”, com as diferenças e diversidades... mas, creio que o que escrevi até aqui, serve a todos aqueles que querem refletir sobre a realidade e se livrar da ignorância, pois como disse um ex-aluno: “Estamos todos presos a correntes, mas só alguns conseguem vê-las”.

Amir Eduardo

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Governo Vargas democrático (1951 – 1954)

Governo Vargas democrático (1951 – 1954)

            Durante o governo Dutra, Getúlio ficou longe das disputas políticas da capital (RJ). O ex-ditador havia sido eleito senador em diversos estados, mas preferiu ficar no seu estado natal (RS). Em 1951 lançou-se a candidato para o cargo a presidência da república. Ganhou estourado... a UDN torceu o nariz. O ódio a Vargas e sua forma “tendenciosa” de fazer política deixava os “liberais” com uma enorme vontade de atacar Getúlio e uma palavrinha na garganta: “golpe!”.
            O governo democrático de Vargas foi marcado por sua posição nacionalista em relação ao crescimento da influencia do capital estrangeiro nos países subdesenvolvidos como o Brasil. Vargas apoiava uma política de nacionalização e estatização dos setores básicos da economia e de melhorias nas condições de vida daqueles aos quais pretendia montar sua base política: os trabalhadores urbanos. Muito agradecidos a Getúlio esse grupo social definia interesses conjuntos e aspirações de melhorias para si. Vargas percebia isso.
            Em relação ao nacional-estatismo, Vargas incentivou uma tendência que vinha crescendo na sociedade brasileira: o nacionalismo desenvolvimentista ou estatista. Vejamos o que é isso:
a)    Nacionalismo é a defessa dos interesses da Nação acima de interesses de grupos ou países estrangeiros. Essa ideologia era forte nas décadas de 1940 e 1950, mas perdeu força nas décadas seguintes.
b)    Estatismo é a idéia de que as mudanças sociais e econômicas devem ser feitas pelo alto, i. e., pelo Estado. Este deve assumir a vanguarda das ações sócio-econômicas a frente da sociedade e de seus grupos sociais. Perceba que essa idéia é contrária ao que os liberais defendem.
c)    Desenvolvimentismo é uma ideologia que foi pensada e sistematizada a partir da década de 1950 pela CEPAL (Centro de Estudos Para a América Latina), que abrangia diversos intelectuais das áreas de economia do subcontinente. O desenvolvimentismo busca soluções para superar a condição de subdesenvolvimento presente nos países latino-americanos. Isso seria possível fazendo esses países alcançarem o nível de industrialização dos países desenvolvidos. Assim, para o pensamento desenvolvimentista o importante é industrializar os países rapidamente. As economias e sociedades da América Latina eram vistas como atrasadas por causa de sua dependência ao mercado internacional na venda de matérias-primas não-industrializadas (herança colonial). Assim, era urgente industrializar.

Na década de 1940 uma discussão acalorou o país: as reservas de petróleo deveriam ser entregues aos capitalistas estrangeiros ou não. A posição nacionalistas era forte. Diversos intelectuais discutiram a questão. Também nas ruas das grandes cidades pessoas comuns defendiam a criação de uma empresa brasileira de exploração de petróleo. Discutia-se também a questão da energia elétrica, dos transportes, da educação de qualidade, mesmo que sem muita profundidade.
Aproveitando-se da onda nacionalista, Vargas criou em 1953 a Petrobrás. Monopolizava as explorações de petróleo e deixava para os estrangeiros o refino e a distribuição. Muitos acharam que ainda era entregar muito para os “gringos”. Mas Vargas, mesmo nacionalista, queria a presença do capital estrangeiro e a amizade de governos como os dos EUA no Brasil. O que ele tentava fazer era balancear as posições nacionalistas com os interesses estrangeiros. Não por acaso foi realizada uma parceria na área militar entre o Brasil e o “grande irmão” do norte em 1952 que previa intercâmbio de treinamentos, técnicas e estratégias de guerra, cursos no exterior etc. Os militares brasileiros, formados numa escola francesa, começavam a se ligar aos EUA.
Se você acha que o nacionalismo-estatista de Vargas não era o bastante para a UDN se bater contra o presidente, você errou: desde o início de seu governo Vargas teve que aguentar as ofensas políticas (o chamava de “fascista”, “hipócrita”, “demagogo”, “manipulador” etc.). Seu maior inimigo era o jornalista Carlos Lacerda, proprietário do jornal carioca Tribuna da Imprensa e o Jornalista Roberto Marinho de “O Globo” ambos do RJ. Todos os dias, em suas páginas descarregavam a raiva da frustada UDN na figura de Vargas.
A partir de 1952 os trabalhadores começaram campanhas salariais. Houve repressão policial e Vargas decidiu mexer no Ministério do Trabalho. Chamou para assumi-lo o então presidente do PTB e seu maior herdeiro político: João Belchior Marques Goulart. Jango, como era apelidado na política era estancieiro de terras no estado de Vargas, o RS e vinha de uma tradição sindical que nasceu com a República democrática (1945-1964). A UDN já ficou com a pulga atrás da orelha. Olhava Jango como um continuador da obra de Vargas.
Logo em suas primeiras ações como ministro Jango chamou representantes de grevistas de 1952 para negociar. Houve acordo, com atendimento a muitas reivindicações dos trabalhadores e a greve acabou. A UDN ficou irritada. Os ataques seriam também contra Jango.
Em 1953 estourou uma greve geral em SP e RJ. Foi “a greve dos 300 mil”. As duas capitais ficaram semanas paradas devido ao peso da greve. A organização fugiu do controle dos sindicatos controlados pelo Estado. O PCB estava por trás. Até agremiações anarquistas ressurgiram das cinzas. Jango não tinha controle sobre o desenrolar da greve.
A UDN e os setores conservadores da sociedade, inclusive as Forças Armadas, exigiam o tratamento que trabalhadores deveriam ter nesses casos: porrada! Mas Jango era um ministro do trabalho diferente: chamou as lideranças sindicais para negociar. Pronto, os setores conservadores acharam aquilo a “gota d’água”. Diziam: “onde já se viu sindicalistas sendo atendidos na sede do governo com o mesmo respeito que nós”. Isso é comunismo!! Absurdo!! Em fevereiro militares lançam o Manifesto dos Coronéis, entre seus assinantes estavam Golbery do Couto e Silva e Silvio Frota. Você ainda vai ouvir falar destas “figuras”...
A pressão sobre Vargas foi tão grande que ele decidiu retirar Jango de seu posto. Mas ao mesmo tempo, para não perder sua base de sustentação deu os 100% que os trabalhadores grevistas pediam. Na contabilidade geral estava 1 X 1, mas a UDN e os militares não aceitaram.
Vargas – acuado – perdia a sua base de sustentação política na burguesia. Seria possível governar só com apoio da população? E as alianças desde 1930? Numa conversa no palácio do Catete disse a um assessor que “alguém tinha que dar um jeito no Lacerda”. Muito provavelmente Vargas se referia a possibilidade de alguém pró-governo, como o jornalista Samuel Wainer discutir com seu Última Hora na imprensa com seu maior oposicionista). O segurança pessoal de Vargas Gregório Bezerra “entendeu o recado”. Contratou um matador para dar cabo de Lacerda. Em 05 de agosto de 1954, o pistoleiro tentou alvejar Lacerda quando este saia de uma reunião num Clube da Marinha. Matou um major da FAB (Força Área Brasileira) e feriu Lacerda. Preso e pressionado o “matador” falou quem o tinha contratado. Era a “gota d’água”.
Em 23 de agosto 30 generais pedem a renúncia de Vargas. Entre eles estava Castelo Branco. Os capitalistas estrangeiros também entraram na briga para desestabilizar o governo Vargas. Para a direita, daquele jeito – atendendo as reivindicações do povo – não dava para governar o país. Também o chamavam de “assassino” e “gangster” para baixo! Pressionado pela eminência de um golpe que o derrubaria, Getúlio comete suicídio em 25 de agosto de 1954. Joga assim seu cadáver nas mãos dos oposicionistas. Afinal, eles não queriam a “cabeça de Getúlio”?
Vargas deixou um bilhete escrito à mão no qual ponderava suas ações como governante, criticava os grupos que queriam entregar as riquezas do Brasil aos estrangeiros e terminava com uma mensagem "falhei...". A família achou o bilhete e não gostou do que o ex-presidente escreveu. 
A família, junto com membros do PTB, reintrepretaram o bilhete criando a "Carta Testamento de Getúlio Vargas"... como se fosse ele que havia escrito!!! Datilografada e com a assinatura de Getúlio tremida, esta diz que a situação do país é culpa das pressões vindas dos interesses multinacionais; diz que lutou com todas as suas forças para defender os interesses do Brasil e - reforçando a imagem de "pai dos pobres" - que saía “da vida para entrar para a História”... dramático, né?
Rapidamente a notícia do final trágico de Vargas correu as ruas das principais cidades. Houve manifestações em todas as grandes cidades brasileiras, a maioria com atos de violência da população contra os inimigos de Vargas: no RJ, a embaixada dos EUA foi depredada a paus e pedras, carros da Tribuna da Imprensa foram queimados; Lacerda teve que fugir do RJ...
A direita reacionária (UDN, militares golpistas, empresas estrangeiras, burguesia nacional e outros) estava armando um golpe de Estado. Esperavam Vargas deixar o poder para assumi-lo. Só não esperavam a reação a morte de Getúlio. Ficaram sem saber o que fazer... muitos fugiram, se esconderam. Nos meses seguintes, o tom das críticas sumiu. Getúlio era agora “O grande estadista que o país perdia”. Se enterro foi disputadíssimo. A população muito chorou sua morte. Neste ouvia-se culparem Lacerda, os EUA, “O Globo” entre outros.
            Até o PCB tomou porrada! O “partidão” vinha difamando Getúlio, chamando-o de “Chefe do imperialismo que colocava o Brasil nas mãos das potências estrangeiras” e daí para mais. Quando veio a notícia de sua morte, em Porto Alegre um carro do jornal do partido “A Classe Operária” foi incendiado.

            No lugar de Vargas, seu vice Café Filho assume a presidência. Pessoalmente apoiara os golpistas. Isso iria dar muito pano para manga ainda... 

O governo Dutra

O governo Dutra  

            O governo de Eurico Gaspar Dutra é marcado pelo realinhamento do Brasil a guerra-fria anti-comunista norte-americana. Lembre-se que ao final da Segunda Guerra (1938-1945) os governos de Moscou e Washington sentaram para conversar sobre os despojos de guerra e o que fazer com as potências derrotadas, particularmente a Alemanha. Em diversas reuniões em Yalta até Potsdam, Roosevelt, depois Trumam pelos EUA e Stálin pela URSS negociaram a paz no mundo. Assim, entre 1945 e 1947 o mundo viveu um pequeno período de “paz negociada”.
            No Brasil os reflexos disso ficam claros quando o PCB fora legalizado e pôde em 1946 disputar as eleições gerais, fazer campanha nas ruas – enchendo estádios de futebol para o público ouvir o “camarada” Prestes falar – e eleger muitos pecebistas para diversos cargos.
            A legalidade do PCB no entanto durará um minúsculo ano. Dois motivos deixam o partido em situação “difícil” e levam a cassação de seu registro em meados de 1947. O primeiro, mais claro é o rompimento de EUA e URSS da política de “conciliação”, a partir desse ano. Agora a Guerra-fria era para valer!
O segundo motivo foi que houve uma série de greves entre 1946 e 1947 de categorias de trabalhadores que, aproveitando-se das liberdades restituídas nesses “tempos democráticos”, exigiam melhorias salariais. Uma das greves que mais se destacou foi a dos bancários de SP em janeiro/fevereiro de 1947. A posição do PCB nessas greves era ambígua e indecisa. Se por um lado era um partido que tendia a apoiar todas as manifestações dos trabalhadores, por outro – de olho nos acontecimentos mundiais – procurava não promover ações que pudessem desestabilizar o governo Dutra, pois este, aliado dos EUA, estava em “lua-de-mel” com a URSS. O Comitê Central do PCB (CC) pedia aos grevistas que não se excedessem, que lembrassem que eram tempos de paz etc. Mas os trabalhadores queriam melhorar suas condições de vida e trabalho. E tome greve!! O PCB ficava perdido nisso tudo...
No meio de 1947, o Superior Tribunal Eleitoral iniciou um processo de cassação do registro do PCB. Era o impacto da guerra-fria no Brasil. O CC do PCB achou que não ia dar em nada, pois os “interesses do imperialismo não iriam acabar com a paz entre URSS e EUA”. Não movendo um palha para mobilizar aqueles milhares que votaram no partido em 1946. Resultado: no segundo semestre de 1947 o PCB estava de novo na ilegalidade. Em 1948, os deputados, senadores, vereadores e o senador Luis Carlos Prestes foram todos cassados, perdendo seus mandatos.
Dutra foi mais generoso com o PCB até o final de seu governo: foram mortos dezenas de dirigentes do partido. Era a guerra-fria...
Por outro lado, os generais do exército recém egressos da Segunda Guerra, ficaram estupefatos com a organização e ideologia militares norte-americanas. Góes Monteiro era um desses entusiasmados. Decidiu então sistematizar seus planos da época do Estado Novo: era necessário criar uma Doutrina de Segurança e Desenvolvimento Nacionais. Para isso, ele e outro militares, como Juarez Távora, fundaram em 1949 e ESG (Escola Superior de Guerra), baseada na National War College do Tio Sam. A intenção da ESG era sistematizar/organizar uma doutrina de pensamento que levasse Forças Armadas e Estado brasileiro a criar uma sociedade industrial – desenvolvida em bases da nova fase que o mundo estava vivendo: luta contra o inimigo maior: o comunismo. O país deveria se transformar em um grande quartel.
A ESG tinha, no entanto duas diferenças em relação a NWC dos EUA: dava maior importância a luta contra o inimigo interno comunista e não era só freqüentada por militares. Centenas de civis faziam cursos na ESG. Todos eles escolhidos a dedo pelo comando da escola: a maioria eram membros da alta burguesia e tecnocratas (uma mistura de burocrata com técnicos em áreas de alta tecnologia). Por que será que havia civis na ESG? Pense...
O governo Dutra (1946 – 1950) criou o plano S.AL.T.E. (saúde, alimentação, transporte e energia). Os resultados foram decepcionantes, a não ser para o próprio presidente que engordou uns bons quilinhos durante seu mandato...
            Em 1950 realizou-se no Brasil a Copa do Mundo de Futebol. O Maracanã foi construído para esse evento. A empolgação era geral. A seleção canarinho desfilou até a final... um dia antes da finalíssima contra os já campeões do mundo Uruguai, os jornais, as pessoas e todo mundo só falava uma coisa: “Brasil campeão!”. É... perdemos: 2x1 para “nostros ermanos” com um gol difícil de engolir de Gigghia. O país chorou muito aquela decepção...
            Ao final do governo Dutra os partidos se preparavam para as eleições em 1950. Para a UDN abria-se a possibilidade de ganhar uma eleição, mas havia um fantasma que poderia atrapalhá-los...


O fim do Estado novo e as eleições de 1945

O fim do Estado novo e as eleições de 1945

Com a derrota do nazi-fascismo na Europa a situação de Vargas ficou insustentável no Brasil. Por quê? A vitória dos Aliados na guerra deixava os sistemas democráticos ocidentais em relevância. O Brasil não poderia fugir ao ritmo dos acontecimentos mundiais. Era preciso adaptar-se às eleições democráticas e essa exigência vai canalizar um desejo de amplos setores da sociedade para que o estado novo acabe.
Os primeiros a pressionar Vargas para tal fim formam os generais militares que estavam na Segunda Guerra. Já de volta ao Brasil, em agosto de 1945 proclamam o “Manifesto dos Militares” que pede a saída de Vargas do poder. Este se sentiu traído, pois estes militares eram generais  por sua causa e ainda eram de seu apoio (G. Monteiro, E. Dutra etc.).
As oligarquias liberais que odiavam Vargas por causa do atendimento as reivindicações dos trabalhadores urbanos começaram a pedir a cabeça do ditador. Essas elites liberais começavam a se unir para formar um partido político: a UDN (União Democrática Nacional), defendiam uma participação dos letrados na política e o fim dos direitos trabalhistas indos do Estado Novo. Bem democráticos, você não acha?
O PCB – que foi quase destroçado durante o Estado Novo – começou a se rearticular no segundo semestre de 1943 na “Conferência da Mantiquera” e através do grupo comunista do RJ e do NE que criou o CNOP (Comitê Nacional de Organização Provisória) em desacordo com os comunistas de SP. A posição do PCB aqui era de ofender Vargas, chamando-o de ditador e exigir sua queda. Mas as coisas vão mudar...
Vargas – astuto politicamente - percebeu que não havia mais como ficar no poder. Por isso criou dois partidos políticos para os tempos democráticos que estavam por vir: o PSD (Partido Social Democrático) – que abrangeria as elites beneficiadas pela máquina do Estado Novo; e o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro, nada a ver com o atual) - para representar os direitos dos trabalhadores conquistados no Estado Novo e enfrentar o PCB.
Os trabalhadores urbanos de RJ e SP não esqueceram de Vargas. Apoiados por políticos e sindicalistas ligados à estrutura de sindicalismo oficial do Estado Novo, criam em meados de 1945 o “Movimento Queremista” ou “Queremos Getúlio”. Pediam a continuação do ditador no poder!! Lutavam por  uma nova constituição, mas que fosse presidida por Vargas!! E ainda exigiam que Vargas fosse candidato nas próximas eleições!!
Como diz o historiador carioca Jorge Ferreira: Estranho país esse, heim? O povo pede para o ditador ficar, pois tem medo que os liberais “democráticos” retirem-lhes os direitos e os coloquem numa situação anterior a 1930... i. e., sem direitos e sendo tratados como “caso de polícia”...
Foi aí que o PCB acordou... os trabalhadores “queriam Getúlio”!! Em 1945, ainda com Prestes preso, mas já “dando as cartas” o partido muda de lado e começa a apoiar Vargas. Êta país cumpricado, sô!?
Sob enorme pressão dos militares e dos liberais Vargas é retirado do poder e 29 de outubro de 1945. Marcadas as eleições para novembro de 1945 surgiram três candidatos:
O brigadeiro Eduardo Gomes (UDN) era opositor de Vargas desde o Estado Novo e baseou sua campanha no lema “Lembrai-vos de 37” em cartazes que demonstravam o rosto de pessoa com venda nos olhos e na boca.
O general Eurico Gaspar Dutra (PSD-PTB) foi apoio de Vargas até 1945 e era o candidato das oligarquias do Estado Novo. Seu coordenador de campanha Hugo Borghi fez de tudo para que Vargas – isolado no RS – lhe desse apoio, mas o ex-ditador negava dizendo que Dutra o teria traído.
O engenheiro E. Fiúza (PCB) era um desconhecido, mas o partido percebendo que Vargas não apoiava Dutra tentou chamar a atenção do ex-ditador com a candidatura de seu amigo (Fiúza). O PCB estava a partir de outubro de 1945 na legalidade, devido aos acordos de paz do pós-guerra entre EUA e URSS. Essa situação não vai demorar para modificar-se, viu?!
Em que a população votava? Em ninguém!! Ou melhor: pediam para que Vargas fosse candidato, senão não iriam votar! Estranho povo, né?! Eleições “democráticas” com candidatos “novos” e eles querem Vargas. “Santa teimosia”... “O povo não sabe votar”... “Vargas – aquele fascista - controlou até as mentes dos pobres!” diziam os liberais da UDN. Mas qual a realidade?
Dutra era um substituto que não chegava ao pé de Vargas. Sem carisma, o militar não conseguia nem sorrir quando se encontrava com o povo nas praças. Eduardo Gomes era mais frio ainda... coisa de militar. Chegou até a dizer que não “preciso dos votos dos marmiteiros” (a palavra tinha outro significado na época). Hugo Borghi vai propagar que Gomes havia dito que os trabalhadores não precisavam votar nele... mas a tática não impulsionou a campanha de Dutra... Fiúza era um desconhecido. A estratégia do PCB não deu certo. No entanto, para deputados federal e estadual, para o senado e outros o PCB recebeu votações enormes. Prestes, libertado da cadeia elegeu-se senador com a maior votação da época. Jorge Amado, Marighella, Gregório Bezerra, Maurício Grabois e outros elegeram-se deputados federais. Começava a surgir o “Partidão”...

Na ultima semana de campanha, Borghi viaja até o RS e convence Vargas a dar apoio a Dutra. Estava Ganha a eleição!!!

"Estado novo" ou ditadura Vargas (1937 - 1945)

O Estado Novo

            Quando Vargas dá o golpe em 1937, ele procura desestabilizar o PCB. Para isso ele usa de opressão e cooptação sobre os trabalhadores urbanos.
Para isso Vargas utilizava-se de dois planos: repressão a todas as  formas de manifestação que pudessem sair do controle dos Estado – com o PCB e cooptação -  que faz com sua própria imagem como o "Pai dos pobres", uma forma de getulismo que procura criar sobre si mesmo a imagem de bom pai, protetor dos trabalhadores urbanos, concedendo suas reivindicações sobre os direitos e melhores condições no trabalho. Entre 1931 e 1936 há centenas de greves que forçam o ditador a pensar numa saída a alternativa que era o comunismo do PCB.
Vargas tem um grande medo do PCB aumentar seus adeptos. Assim, qualquer manifestação do partido a polícia dava porrada em todo mundo. Para isso foram criados o temeroso DEOPS (Delegacia Estadual de Ordem Política e Social), uma espécie de polícia política e o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) que fazia a censura política e a propaganda do governo.
Objetivando criar um trabalhador obediente foram recriadas diversas práticas destes para inserir nestas idéias de apoio ao governo e ao capitalismo. Exemplo: o sentido do 1º de maio era de ser o “dia do trabalhador”, um dia de luta contra a exploração capitalista; mas foi transformado em “dia do trabalho”, um dia para enaltecer o trabalho na sociedade capitalista, o que é bem diferente. No carnaval há um "incentivo" para as escolas de samba fazerem enredos sobre a imagem de trabalhador que Vargas queria (o "bom malandro", o bom trabalhador, a mulata sexual, a grandeza do Brasil, o próprio Vargas etc.). Ele  chegava a vistoriar pessoalmente o carnaval. Outro fato é que o samba, que antes não tinha nada a ver com o carnaval, sendo inclusive combatido pela polícia por ter um caráter politizado, é "acoplado" ao carnaval elitista e é popularizado, despolitizando o samba.  No rádio Vargas fazia propaganda do governo na obrigatória “Hora do Brasil”, chegando a comprar aparelhos de rádio para instalá-los nas principais praças do RJ e de SP.
Por outro lado, A C.L.T. (Consolidação das Leis do Trabalho) - conjunto de leis do trabalho, garantindo direitos aos trabalhadores urbanos - foi criada. Assim os trabalhadores deixariam de lado “idéias tão estranhas ao Brasil” como o comunismo.
O Estado Novo tinha dois lados, um lado repressivo, que usava o DEOPS e o DIP pra dar porrada – inclusive com uso de tortura (que herança maldita da Igreja católica!!), e um outro bonito, que mostrava Vargas como "Pai dos Pobres", pronto para atender as necessidades do povo.
A constituição criada em 1937 foi apelidada de "A Polaca" pois foi baseada em uma constituição fascista da Polônia.
O modelo de industrialização promovida pelo Estado Novo era uma baseava-se no Keynesanismo (idéia de John M. Keynes: o Estado devia ajudar a burguesia a acumular capital, desonerando-o pelo investimento em áreas de estrangulamento como siderurgia, transporte, educação etc. e benefícios sociais para a população). Essa industrialização ocorreria nos moldes do taylorismo, em que além do trabalho controlado em um ambiente “agradável” e “bom” para que o trabalhador pudesse render mai$$$. Nesse sentido é que a vida do trabalhador também deveria ser controlada, mesmo fora das fábricas.
Durante a Segunda Guerra, Vargas fica entre o apoio dos EUA e da Alemanha nazista, vendo quem o dava mais dinheiro para o Brasil. Em certo momento, por pressão de Roosevelt, entra do lado dos EUA. No norte da Itália, os brasileiros recebem treinamento, armas e um tratamento preconceituoso por parte do exército norte-americano. São também mandados na frente de guerra, mas – com raiva dos “amigos da terra do Tio Sam”, não decepcionam.
Quase ao final da guerra, os generais brasileiros mandam uma carta para Vargas perguntando como poderiam combater aquilo que o presidente deles acreditava (o fascismo). Era o sinal de que o fim da guerra iria mudar algo aqui dentro...


Quem eram os homens de Getúlio Vargas no Estado Novo?

  • Filinto Muller: ex-tenente, fora expulso da Coluna Prestes por mal caráter; era chefe de polícia que tinha contato direto com Vargas, quase um braço direito dele na repressão pois tinha função de ministro;
  • Góes Monteiro: ex-tenente; elevado a general por Vargas; cria uma doutrina de desenvolvimento/segurança para o país que ligava o progresso à segurança nacional; preocupa se com o "inimigo interno":   o comunismo e o M.C.I.; suas idéias de desenvolvimento e segurança nacional estava ligada a uma militarização do Estado, política e país;
  • Eurico G. Dutra: fazia ligação com os representantes dos interesses norte-americanos no Brasil através de contatos militares;
  • Osvaldo Aranha: vinha da elite culta de SP; fazia ligação com os representantes dos interesses norte-americanos no Brasil através de contatos civis;
  • Juarez Távora: ex-tenente, chefe de um dos destacamentos da Coluna Prestes; faz a ligação dos militares com os civis, inclusive com os industriais;
  • Cordeiro de Farias: ex-tenente, chefe de um dos destacamentos da Coluna Prestes; tinha influência nos setores internos da área militar.

Todos esses estavam unidos todos por um "inimigo comum", o comunismo. Além disso, eles enxergavam comunismo em tudo. Tudo era ação do temível Movimento Comunista Internacional (MCI) e dá-lhe porrada....
Alguns nomes de comunistas que eram importantes dentro do PCB na época: Luis Carlos Prestes, Agildo Barata, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Oscar Niemeyer e outros desconhecidos que você ouvirá falar muito: Carlos Marighella, Maurício Grabois, Pedro Pomar, João Amazonas...
O Estado Novo era uma ditadura, mas não militar. Vargas estava próximo dos militares, e tinha o apoio deles. Era ditadura por que não havia disputa entre partidos políticos, pois estes não existiam e o poder ficou nas mãos de uma só pessoa: Getúlio Vargas.









Os governos de Vargas (1930 - 1937)

Os governos de Vargas

            Getúlio Dornellas Vargas fica no poder entre 03/nov/1930 e até 29/out/1945 (e isso é só a primeira fase de seu governo, haverá mais uma entre 1950 e 1954).
            Vargas preocupa-se nos primeiros anos em apoiar-se na Aliança Liberal e em um grupo de tenentes que lutaram em 1930 e o apoiam. O “presidente” apostava em projetos de “modernização” que beneficiassem a burguesia nacional, especialmente na área industrial.
            A partir das pressões, especialmente depois do movimento constitucionalista de 1932 em S. Paulo, Vargas tenta se manter no poder sem estar preso diretamente a outros grupos. No entanto, ele procura sempre ter apoio dos trabalhadores. É Nesse sentido que Vargas vê com bons olhos o atendimento de reivindicações dos trabalhadores urbanos para a criação e aprovação de leis trabalhistas. Assim começa a nascer o mito “Vargas, pai dos pobres”.
            Essa preocupação de Vargas em satisfazer alguns poucos anseios dos trabalhadores urbanos cria uma enorme rivalidade com o PCB, esta  teve grande influência no cenário político até 1954.
            Em 1932 Vargas enfrenta o movimento constitucionalista de S. Paulo. Houve uma sangrenta guerra em que as elites e a “classe média” paulista queriam exigir eleições e um tratamento mais atencioso, pois até o interventor que Vargas nomeou para S. Paulo desagradava (era o paraibano João Alberto que não conhecia nada em S. Paulo). Há uma guerra civil entre os "paulistas" e o governo federal. Vargas, muito espertamente, usa a situação para dizer que os paulistas estavam querendo voltar à "República Velha". Assim, joga o país contra as forças militares paulistas, vencendo-as. Após o fim da guerra civil, Getúlio faz acordo com as elites de S. Paulo, voltando a prática de comprar o excedente de café...


        Além disso, Vargas incentiva a aprovação de uma nova constituição em 1934. Lembre-se que por seu governo ser provisório, existia uma cobrança de eleições livres, porém Vargas tinha uma ideia de "arrumar" o país antes das eleições e, secretamente, de não sair do poder... Baseando-se nisso, em 1934 Vargas faz o “empossamento” de um novo presidente: ele mesmo! Tornava-se um presidente não-provisório. Perceba: Vargas é um apaixonado pelo poder.
            A constituição de 1934 era “corporativista”, porque continha algumas ideias fascistas do corporativismo.  Todas as formas de organização da sociedade são ligadas à classe econômica do grupo a que a lei se refere, logo havia direitos diferentes a grupos diferentes. Além disso, Getúlio começa a abrir caminho para se manter no poder: menor interferência do judiciário no poder do presidente, eliminação do cargo de vice-presidente etc. Esta constituição entra em vigor, mas não durará, sendo substituída em 1937.

            Em novembro de 1935 ocorre uma tentativa de revolta nos quartéis  em Recife e em Natal. Em Pernambuco, a coisa era liderada pelo PCB (Partido Comunista do Brasil), ligado a Luis Carlos Prestes (que nesse momento está no Rio de Janeiro preparando uma "Revolução Socialista" com apoio da URSS). Inimigos dos comunistas, os fascistas da AIB (Ação Integralista Brasileira) chamam essa fato de "Intentona comunista". No entanto, essa visão diminui a proporção da coisa, pois havia outros grupos envolvidos na tentativa de derrubar Getúlio e promover o que foi prometido em 1930.
         1935 foi um último suspiro do tenentismo que se apoiava na figura de Prestes e no comunismo. A tentativa de revolta foi um enorme fracasso (Esta “revolta” está retratada no filme “Olga”). Rapidamente esmagada, criou um trauma do exército contra o comunismo...




Este episódio foi usado por Vargas com apoio dos Integralistas (fascistas brasileiros) para colocar a opinião pública contra o comunismo e empurrar as eleições mais pra frente... de 1935 a 1937, o governo Vargas vai substituindo os opositores civis e militares nos cargos importantes do país, pressionando os opositores (muitas vezes com calúnias sobre eles!). Góes Monteiro (tenente e braço direito de GV), Eurico Dutra e Vargas fazem uma campanha dizendo que o país não está pronto para eleições pois o comunismo era forte ameaça. Começava a surgir por aqui o fantasma do “Movimento Comunista Internacional” que via povoar a cabeça da direita conservadora até muito tempo depois...
Além disso os Integralistas, sob a liderança do jornalista Plínio Salgado, adoravam a ideia de que os comunistas deveriam ser emparedados. Vargas tinha influência fascista – vinda de sua formação positivista no RS. 
No Natal de 1936 Vargas liberta muitos prisioneiros políticos, muitos deles comunistas sob a alegação de ser um indulto de natal. A exceção eram os espiões estrangeiros e Luis Carlos Prestes (acusado de mandar matar uma garota que supostamente entregava os membros do PCB para a polícia durante a repressão a "revolta" de 1935). Em 1937 a verdade veio à tona: um falso plano dos comunistas e do “M.C.I.”, o plano Cohen, é anunciado por Góes Monteiro.  A mídia da época compra a ideia. O alarde está dado... O tal plano foi escrito pelo militar anti-comunista Olympio Mourão a mando de Vargas para colocar a população contra o comunismo, alegando que eles iriam tomar o poder no Brasil. Aproveitando esse clima de terror criado, Vargas anuncia em 10 de novembro de 1937 um golpe de Estado e instaura uma ditadura, o "Estado Novo" (ou o que os historiadores chamam de ditadura Vargas), que dura até 1945.
Em janeiro de 1938, 1500 integralistas - percebendo que Vargas não entregou o poder a seu líder, Plínio Salgado - atacam Vargas dentro do palácio do governo a fim de derrubá-lo. Lá dentro, Vargas, sua família e seu segurança pessoal, resistem. Depois de muito tiroteio, a polícia chega e prende os integralistas. Seu líder será extraditado para Portugal. A maioria dos seus membros vão apoiar a ditadura Vargas.



1931: Uma nova legislação sindical

1931: Uma nova legislação sindical: para quê?

Durante a República Velha houve o desenvolvimento de diversos tipos de sindicalismo: uma corrente anarquista e uma variante chamada anarco-sindicalismo e outra comunista.
Lembre-se: para os anarquistas o sindicato, por ser criado dentro da sociedade capitalista, deveria servir como instrumento para destruir o capitalismo e depois sumir. Já os anarco-sindicalistas acreditavam que os sindicatos poderiam existir mesmo depois da Revolução social, i. e., dentro da sociedade anarco-comunista. Já os comunistas querem os sindicatos como  suporte para o fortalecer o Partido Comunista.
Por outro lado, o industrial de SP Jorge Street queria a legalização dos sindicatos, e no governo Vargas virou Ministro do Trabalho. Fez-se uma Nova Legislação Sindical-trabalhista. Todos os sindicatos ficariam ligados ao Estado, que os controlava. Essa foi uma forma de anular os anarquistas e anarco-sindicalistas, pois estes não aceitavam a presença do Estado, nem dos burgueses em organizações operárias e abandonaram os sindicatos exustentes para criar sindicatos paralelos à estrutura oficial. Os comunistas, em um primeiro momento não aceitam a novidade, mas depois entram nos sindicatos do Estado.
Em 1931, criou-se também um imposto sindical, para juntar dinheiro para criar diretorias fixas e burocracia, mantendo mais facilmente o controle sobre os sindicatos. Retirar dos trabalhadores a opção de escolher, de dirigir seus órgãos é uma forma de criar “ovelhas submissas” e chamá-las de “cidadãos”...


O movimento de 1930: fatos, visões e discurso ideológico

A “Revolução” de 30 ou o MOVIMENTO de 1930


A revolução de 30 não é uma revolução propriamente dita, mas foi chamada de “revolução” por alguns historiadores somente porque seus participantes vitoriosos (a Aliança Liberal e os tenentes) se diziam “revolucionários”. Em uma outra visão (Boris Fausto – historiador) a “revolução” foi um conflito entre as elites que rearranjou o poder entre as elites.
No entanto, a maioria dos historiadores cometera um grave erro de análise ao analisar a revolução olhando fatos que aconteceram depois de 1930. Na maior parte das análises coloca-se os “estados” como “agentes da revolução”, i.e., da própria História. Assim teria havido uma luta de RS, MG e PB contra a hegemonia política de SP (?). Essa visão é enganosa, pois a história não é feita por estados, mas sim por pessoas, ou melhor, por grupos de pessoas. Os vencedores da revolução criaram uma visão/versão da “revolução de 30” e boa parte dos historiadores aceitou essa visão mitológica da História.

Mas 1930 foi ou não uma revolução?

A historiografia oficial, diz que foi uma revolução, mas outras linhas de análise dizem que não foi revolução, baseado em seus conceitos de “Revolução”. 
Mas, o que é uma revolução? Há vários pontos de vista sobre esse conceito:
Para os marxistas: modificações econômicas [base/infra-estrutura] da sociedade, que se modificada, modifica toda a sociedade [super-estrutura] até chegar ao indivíduo. Por isso, os marxistas dizem que 1930 não foi revolução,  pois não mudou a estrutura do país [economia]
No entanto, mesmo sem modificações econômicas, houve mudanças importantes em aspectos políticos no pós-1930:
  • Estado centralizado;
  • Mudança de projeto econômico para o Brasil (Industrialização); mas, sem abandonar a cafeicultura;
  • O "povo" passa a ser um ator político, buscando o atendimento a seus interesses; mesmo que seja para ser atraído (não manipulado!) para projetos políticos que servem para atender aos interesses de outros setores da sociedade.

Mas, a questão fica em aberto... foi ou não revolução?

            "Façamos a revolução antes que o povo a faça". Antonio Carlos da Aliança Liberal de MG teria dita esta frase. Vamos pensar um pouco sobre ela: podemos perceber que existia uma possibilidade de existir uma revolução popular, ou seja, o povo estava se mobilizando, e podia lutar por seus interesses. O Partido Comunista do Brasil (PCB), apesar de não ser muito numeroso, esteve envolvido, pois mesmo sem muitos "seguidores" poderia fazer muito "barulho". O período entre 1928 - 1932 é marcado por lutas políticas muito intensas.
           

Um racha no governo da República Velha

Em 1928, a burguesia Industrial rompe com a República Velha, e funda a CIESP (um sindicato patronal que atua no sentido de unificar os discursos e a atuação da grande burguesia industrial de SP e RJ, chegando inclusive a punir aqueles empresários que não aceitavam suas metas com boicotes)e é ligada ao CIB (Centro Industrial Brasileiro) no RJ.
Em 1928, a CIESP decide criar um projeto político para o Brasil baseado na industrialização e nos moldes europeus de desenvolvimento. Colocava-se como o único caminho para o desenvolvimento, no modelo de industrialização “ARTIFICIAL”: com matérias-primas nacionais e importadas. (Obs. : desde 1870 discute-se o modo de industrialização, o “NATURAL”, onde as matérias-primas seriam nacionais e é defendida pela grande burguesia agrária; e a “ARTIFICIAL”, defendido pela burguesia industrial).
Esse projeto envolvia também a derrubada da República Velha e a entrada do capital estrangeiro na industrialização tecnológica no Brasil. Isso seria para “adequar/adaptar” a economia daqui ao capitalismo, chamando as empresas multinacionais para o Brasil. Oferecendo-se mão-de-obra barata - baseado no grande crescimento populacional e no êxodo rural - em troca do investimento estrangeiro.
Hoje sabemos que esse projeto falhou! Porém eles não perceberam que haveria uma Revolução micro-eletrônica com o enorme avanço da inovação tecnológica. Assim, a necessidade de mão-de-obra sendo substituída por máquinas acabou com esse projeto nos anos 1990.


Os projetos para o país

            Existem neste período mais dois projetos para o Brasil: um dos tenentes e outro do PCB. O projeto descrito no texto acima foi “abraçado” pela Aliança Liberal.
Os tenentes lutavam por melhorias para os operários e fim da corrupção eleitoral e possuíam uma “visão de mundo” carregada pelo fato de serem do exército.
O BOC – Bloco Operário e Camponês (orgão eleitoral do PCB, especialmente em SP - reduto dos anarquistas),  defendia: um projeto que seria uma "luta" entre a industrialização com controle nacional, em que os operários tomariam “conta“ das fábricas (gestão operária) em confronto com o “imperialismo” (representados no Brasil pelos setores da burguesia agrária e comercial ligados ao comércio exportador de café); além disso: realização de uma reforma agrária e o rompimento com o imperialismo. Para marxistas-leninistas seguidores do Komintern (órgão da URSS que agregava e ordenava a linha política dos partidos comunistas do mundo todo) isso seria correspondente a “revolução democrático – burguesa”, ou melhor, uma "etapa" essencial para o socialismo.
No decorrer das lutas enter 1928-1930 havia 2 itens comuns aos 3 projetos: a República Velha deveria cair e a liderança de Luis Carlos Prestes.



O encadeamento dos fatos

A burguesia industrial se junta à Aliança Liberal - união das oligarquias de RS, PB e MG, representados por Getúlio Vargas. Enquanto isso, Washington Luiz quebra a “política do café-com-leite”, indicando outro paulista, Júlio Prestes, para presidência.
            Em 1929 ocorre o “crack” da bolsa de NY. No Brasil o mercado do café era basicamente nos países capitalistas centrais (EUA e Europa). Além disso, em 1905, em Taubaté/SP ocorre uma reunião entre os cafeicultores, representantes dos EUA e da Inglaterra. Estes pedem aos cafeicultores para o Brasil produzir menos café, mas não são atendidos, pois os norte-americanos pagam as safras excessivas de café com pagamento à vista. A crise de 1929 enfraquece a elite cafeeira, criando uma crise econômica, pois a maioria da receita do governo vinha do café.
            Nesse período, o New York Times dos EUA informa que em SP e no RJ estavam acontecendo grandes manifestações de massa comandadas pelo PCB. Com fontes muito questionáveis esse jornal escreve que o PCB incentivava a população às manifestações, estando no meio delas, mas não comandanda-as. O jornal também se "esquece" dos anarquistas, muito fortes em SP.
            O BOC, nesse período tenta convencer os operários de SP em aceitar o comunismo e a liderança sindical-partidária do PCB. Um jornal de classe média "O Combate" vai oferecer ao BOC uma coluna semanal que serviria para atacar os anarquistas, pois "O Combate"  era um jornal grande e diário. Por outro lado, a principal voz do anarquismo em SP é o jornal "A Plebe” de difícil circulação, por se tratar de um jornal operário. Esta brigando contra o BOC vai rachar o movimento operário em SP-RJ.
Com “sua” coluna o BOC chama os operários para aderirem ao PCB e, em seguida, tenta difundir a idéia da revolução socialista. Quando começa a difundir essa idéia, a direção do jornal “O Combate" cancela a coluna. Isso cria uma radicalização das lutas entre anarquistas e comunistas com vantagem para estes com graves conseqüências para os operários durantes o movimento de 1930.
            Em 1929, Júlio Prestes ganha as eleições, por causa da corrupção do sistema eleitoral, mas não chega a assumir, pois em 30 de outubro de 1930, W. Luiz é deposto, antes de passar lhe o poder. Nesse momento ocorrem lutas armadas no RJ, feitas pelos tenentes e com apoio das grandes manifestações populares.



O discurso de poder: ocultação da História e da política

O que é “Discurso de poder”?
Uma versão da História do movimento de 1930 e da p´ropria História do Brasil criada pelos “vencedores” de 1930 durante o governo Vargas que envolve em uma linha de análise progressiva desde o período colonial até o futuro a partir da idéia de progresso para sermos uma nação capitalista forte. Criou-se noções-chave sobre a História que perduram até hoje.
Essas noções-chave foram as seguintes:
  • 1930 foi um marco divisor da história: antes de 1930 era atrasado e agrário; no pós-1930 tornou-se avançado, industrializado e moderno;
  • Não havia várias propostas para o país, mas apenas um “bloco unitário e monolítico” no processo "revolucionário";
  • Haveria um Estado-sujeito que faria a História e não os grupos sociais lutando por interesses antagônicos;
  • Não houve participação popular em 1930. A intenção era apagar a memória histórica dos trabalhadores no processo;
  • Foi uma "Revolução".



Crítica sobre o “discurso de poder”:

a) 1930 não foi um marco divisor da história do Brasil. O processo de industrialização começou em 1870, e não somente depois de 1930. Ou como diz outra versão, durante a Segunda Guerra o Brasil não podia importar da Europa e começou a produzir por si próprio, industrializando-se. É a teoria da “substituição de importações” que contém muitas falhas;
b) Existiam vários projetos para o futuro do país, não somente um “bloco unitário” e sem divergências entre si. Essa ação apaga a participação e os projetos dos tenentes e do BOC. Além disso, procura criar a noção de que todo mundo ficou satisfeito com a “Revolução”. Essa idéia se mantém durante todo o século XX e é muito forte até hoje.
c) A noção do Estado-Sujeito é uma idéia positivista que diz "o Estado deve se antecipar às exigências sociais". Isso significaria que 1930 criou um Estado capaz de se antecipar aos desejos da sociedade (esse Estado conseguiria deixar todo mundo feliz e satisfeito com sua situação, sem que ninguém precisasse reivindicar seus interesses). Na República Velha as questões sociais eram tratadas como "questão de polícia". Essa mudança de visão é um meio de manter a ordem capitalista ("ORDEM E PROGRESSO"), envolvendo a tentativa de atrair o povo para um projeto político-econômico elitista. A idéia de Estado-sujeito é demonstrada em uma comemoração cívica de Vargas no governo em 1931: as bandeiras dos estados brasileiros são retiradas de seus mastros e queimadas no chão, em seguida, é hasteada a bandeira do Brasil. Isso representou o fim do federalismo no Brasil (país estranho, pois mantém o nome “federalista” até hoje). Houve também uma nova constituição por que não se poderia continuar com uma feita pelo regime político derrubado. Havia um desejo de eleições limpas no país, mas que só aconteceriam em 1946, depois que Vargas foi retirado do poder em 1945.

d) A participação popular em 1930 é interpretada como "nula" até hoje - o que é uma conseqüência do discurso de poder. O povo participou e participa da história, não apenas observando tudo o que estava acontecendo passivamente. Tirando a participação do povo, colocou-se os tenentes como "heróis" da “Revolução” de 1930 para apagar a participação popular.

O café o crescimento de São Paulo (século 19)

O café e o crescimento de São Paulo

Desde a década de 1860 as plantações de café expandiram-se pelo Vale do Paraíba (entre o RJ e MG) e acabaram por “marchar” até o interior de S. Paulo, conhecido como Oeste paulista. Como no final do século 19 o café tinha as vendas garantidas para os norte-americanos e europeus, as plantações cresceram progressivamente, requerendo cada vez mais investimentos e trabalhadores. Assim, a cafeicultura em S. Paulo vai proporcionar ao desenvolvimento da região: (a) agricultura produtora de alimentos e matérias – primas; (b) o sistema ferroviário paulista; (c) expansão do sistema bancário e do comércio de exportação e importação; (d) infra-estrutura: portos, armazéns, transportes urbanos, comunicações e modernização de cidades como S. Paulo e Santos; (e) gasto público do Estado, federal ou estadual; (f) atividade industrial em: equipamentos para o beneficiamento do café, sacaria de juta para o café, manufaturas – especialmente em tecidos; (g) os saldos positivos da balança comercial com o exterior e com o resto do país; (h) os investimentos do capital externo; (i) as políticas tarifária, monetária, de câmbio, e as políticas de defesa e valorização do café; (j) movimento imigratório e (l) a disponibilidade de terras.

A união no mesmo espaço-tempo desses fatores gerou: redução dos custos da mão-de-obra e a ampliação do nível da produtividade, do excedente, do mercado; além da diversificação dos investimentos. Com o tempo e as vendas do café em alta, os fazendeiros tiveram uma sobra de capital que não permitia investir somente em mais cafezais. Por isso, começaram a diversificar a aplicação do capital em direção as atividades mais progressistas como o mercado bancário e as indústrias. Também, os comerciantes e comissários “atravessadores” do café que não queriam ficar como simples vendedores dependendo dos outros para sobreviver, começaram a aplicar em indústrias e bancos. Portanto, o capital cafeeiro, em suas fases de expansão, deu origem ao capital industrial e bancário bem como a própria modernização de S. Paulo. Muito diferente se comparado com o resto “pobre” do país.

Assim, podemos concluir: além do investimento de capital, é bom lembrarmos que os trabalhadores imigrantes que vinham para as fazendas de café fugiam para a cidade de S. Paulo a fim de tentar uma vida melhor. Até mesmo as primeiras levas de trabalhadores para as indústrias de S. Paulo na passagem do século 19 ao 20 foram fruto da expansão cafeeira. Mas, também a manutenção de baixos salários e a tentativa de desmobilizar seus movimentos pelo excesso de mão-de-obra na região foram herdados do café. Nisso as oligarquias agrárias e industriais davam as mãos... (o termo oligarquia vem do grego e significa os mais ricos no poder).


A burguesia industrial de S. Paulo formou-se de fazendeiros, imigrantes ricos e de ex-comerciantes, mas não foi de repente. Uma classe social (seja ela a burguesia ou os operários) só tem sua “auto-formação” durante o próprio processo de luta de classes.