A “Revolução” de 30 ou o MOVIMENTO de 1930
A
revolução de 30 não é uma revolução propriamente dita, mas foi chamada de
“revolução” por alguns historiadores somente porque seus participantes
vitoriosos (a Aliança Liberal e os tenentes) se diziam “revolucionários”. Em
uma outra visão (Boris Fausto – historiador) a “revolução” foi um conflito
entre as elites que rearranjou o poder entre as elites.
No
entanto, a maioria dos historiadores cometera um grave erro de análise ao
analisar a revolução olhando fatos que aconteceram depois de 1930. Na maior
parte das análises coloca-se os “estados” como “agentes da revolução”, i.e., da
própria História. Assim teria havido uma luta de RS, MG e PB contra a hegemonia
política de SP (?). Essa visão é enganosa, pois a história não é feita por
estados, mas sim por pessoas, ou melhor, por grupos de pessoas. Os vencedores
da revolução criaram uma visão/versão da “revolução de 30” e boa parte dos
historiadores aceitou essa visão mitológica da História.
Mas
1930 foi ou não uma revolução?
A
historiografia oficial, diz que foi uma revolução, mas outras
linhas de análise dizem que não foi revolução, baseado em seus conceitos de
“Revolução”.
Mas, o que é uma revolução? Há vários pontos de vista sobre esse
conceito:
Para
os marxistas: modificações econômicas [base/infra-estrutura] da
sociedade, que se modificada, modifica toda a sociedade [super-estrutura] até
chegar ao indivíduo. Por isso, os marxistas dizem que 1930 não foi
revolução, pois não mudou a estrutura do
país [economia]
No
entanto, mesmo sem modificações econômicas, houve mudanças importantes em
aspectos políticos no pós-1930:
- Estado centralizado;
- Mudança de projeto econômico para o Brasil
(Industrialização); mas, sem abandonar a cafeicultura;
- O "povo" passa a ser um ator
político, buscando o atendimento a seus interesses; mesmo que seja para ser atraído (não manipulado!) para
projetos políticos que servem para atender aos interesses de outros
setores da sociedade.
Mas,
a questão fica em aberto... foi ou não revolução?
"Façamos
a revolução antes que o povo a faça". Antonio Carlos da Aliança Liberal de MG teria dita esta
frase. Vamos pensar um pouco sobre ela: podemos perceber que existia uma
possibilidade de existir uma revolução popular, ou seja, o povo estava se
mobilizando, e podia lutar por seus interesses. O Partido Comunista do Brasil
(PCB), apesar de não ser muito numeroso, esteve envolvido, pois mesmo sem
muitos "seguidores" poderia fazer muito "barulho". O
período entre 1928 - 1932 é marcado por lutas políticas muito intensas.
Um racha no
governo da República Velha
Em
1928, a burguesia Industrial rompe com a República Velha, e funda a CIESP (um
sindicato patronal que atua no sentido de unificar os discursos e a atuação da
grande burguesia industrial de SP e RJ, chegando inclusive a punir aqueles
empresários que não aceitavam suas metas com boicotes)e é ligada ao CIB (Centro
Industrial Brasileiro) no RJ.
Em
1928, a CIESP decide criar um projeto político para o Brasil baseado na
industrialização e nos moldes europeus de desenvolvimento. Colocava-se como o
único caminho para o desenvolvimento, no modelo de industrialização
“ARTIFICIAL”: com matérias-primas nacionais e importadas. (Obs. : desde 1870 discute-se o modo de industrialização,
o “NATURAL”, onde as matérias-primas seriam nacionais e é defendida pela grande
burguesia agrária; e a “ARTIFICIAL”, defendido pela burguesia industrial).
Esse
projeto envolvia também a derrubada da República Velha e a entrada do capital estrangeiro
na industrialização tecnológica no Brasil. Isso seria para “adequar/adaptar” a
economia daqui ao capitalismo, chamando as empresas multinacionais para o
Brasil. Oferecendo-se mão-de-obra barata - baseado no grande crescimento
populacional e no êxodo rural - em troca do investimento estrangeiro.
Hoje
sabemos que esse projeto falhou! Porém eles não perceberam que haveria uma
Revolução micro-eletrônica com o enorme avanço da inovação tecnológica. Assim,
a necessidade de mão-de-obra sendo substituída por máquinas acabou com esse
projeto nos anos 1990.
Os projetos para o
país
Existem neste período mais dois
projetos para o Brasil: um dos tenentes e outro do PCB. O projeto descrito no
texto acima foi “abraçado” pela Aliança Liberal.
Os
tenentes lutavam por melhorias para os operários e fim da corrupção eleitoral e
possuíam uma “visão de mundo” carregada pelo fato de serem do exército.
O BOC – Bloco Operário e Camponês (orgão
eleitoral do PCB, especialmente em SP - reduto dos anarquistas), defendia: um projeto que seria uma
"luta" entre a industrialização com controle nacional, em que os
operários tomariam “conta“ das fábricas (gestão operária) em confronto com o
“imperialismo” (representados no Brasil pelos setores da burguesia agrária e
comercial ligados ao comércio exportador de café); além disso: realização de
uma reforma agrária e o rompimento com o imperialismo. Para
marxistas-leninistas seguidores do Komintern (órgão da URSS que agregava e
ordenava a linha política dos partidos comunistas do mundo todo) isso seria
correspondente a “revolução democrático – burguesa”, ou melhor, uma
"etapa" essencial para o socialismo.
No
decorrer das lutas enter 1928-1930 havia 2 itens comuns aos 3 projetos: a
República Velha deveria cair e a liderança de Luis Carlos Prestes.
O encadeamento dos
fatos
A
burguesia industrial se junta à Aliança Liberal - união das oligarquias de RS,
PB e MG, representados por Getúlio Vargas. Enquanto isso, Washington Luiz
quebra a “política do café-com-leite”, indicando outro paulista, Júlio Prestes,
para presidência.
Em 1929 ocorre o “crack” da bolsa de NY. No Brasil o
mercado do café era basicamente nos países capitalistas centrais (EUA e
Europa). Além disso, em 1905, em Taubaté/SP ocorre uma reunião entre os
cafeicultores, representantes dos EUA e da Inglaterra. Estes pedem aos
cafeicultores para o Brasil produzir menos café, mas não são atendidos, pois os
norte-americanos pagam as safras excessivas de café com pagamento à vista. A
crise de 1929 enfraquece a elite cafeeira, criando uma crise econômica, pois a
maioria da receita do governo vinha do café.
Nesse período, o New York Times dos EUA informa que em SP
e no RJ estavam acontecendo grandes manifestações de massa comandadas pelo PCB.
Com fontes muito questionáveis esse jornal escreve que o PCB incentivava a
população às manifestações, estando no meio delas, mas não comandanda-as. O
jornal também se "esquece" dos anarquistas, muito fortes em SP.
O BOC, nesse período tenta convencer os operários de SP
em aceitar o comunismo e a liderança sindical-partidária do PCB. Um jornal de
classe média "O Combate" vai oferecer ao BOC uma coluna semanal que
serviria para atacar os anarquistas, pois "O Combate" era um jornal grande e diário. Por outro
lado, a principal voz do anarquismo em SP é o jornal "A Plebe” de difícil
circulação, por se tratar de um jornal operário. Esta brigando contra o BOC vai
rachar o movimento operário em SP-RJ.
Com
“sua” coluna o BOC chama os operários para aderirem ao PCB e, em seguida, tenta
difundir a idéia da revolução socialista. Quando começa a difundir essa idéia,
a direção do jornal “O Combate" cancela a coluna. Isso cria uma
radicalização das lutas entre anarquistas e comunistas com vantagem para estes
com graves conseqüências para os operários durantes o movimento de 1930.
Em 1929, Júlio Prestes ganha as eleições, por causa da
corrupção do sistema eleitoral, mas não chega a assumir, pois em 30 de outubro
de 1930, W. Luiz é deposto, antes de passar lhe o poder. Nesse momento ocorrem
lutas armadas no RJ, feitas pelos tenentes e com apoio das grandes
manifestações populares.
O discurso de poder: ocultação da História e da política
O
que é “Discurso de poder”?
Uma
versão da História do movimento de 1930 e da p´ropria História do Brasil criada
pelos “vencedores” de 1930 durante o governo Vargas que envolve em uma linha de
análise progressiva desde o período colonial até o futuro a partir da idéia de
progresso para sermos uma nação capitalista forte. Criou-se noções-chave sobre
a História que perduram até hoje.
Essas
noções-chave foram as seguintes:
- 1930 foi um marco divisor da história:
antes de 1930 era atrasado e agrário; no pós-1930 tornou-se avançado,
industrializado e moderno;
- Não havia várias propostas para o país,
mas apenas um “bloco unitário e monolítico” no processo
"revolucionário";
- Haveria um Estado-sujeito que faria a
História e não os grupos sociais lutando por interesses antagônicos;
- Não houve participação popular em 1930. A
intenção era apagar a memória histórica dos trabalhadores no processo;
- Foi uma "Revolução".
Crítica sobre o “discurso de poder”:
a) 1930 não foi um marco
divisor da história do Brasil. O processo de industrialização começou em 1870,
e não somente depois de 1930. Ou como diz outra versão, durante a Segunda
Guerra o Brasil não podia importar da Europa e começou a produzir por si
próprio, industrializando-se. É a teoria da “substituição de importações” que
contém muitas falhas;
b) Existiam vários projetos
para o futuro do país, não somente um “bloco unitário” e sem divergências entre
si. Essa ação apaga a participação e os projetos dos tenentes e do BOC. Além
disso, procura criar a noção de que todo mundo ficou satisfeito com a
“Revolução”. Essa idéia se mantém durante todo o século XX e é muito forte até
hoje.
c) A noção do Estado-Sujeito
é uma idéia positivista que diz "o Estado deve se antecipar às exigências
sociais". Isso significaria que 1930 criou um Estado capaz de se antecipar
aos desejos da sociedade (esse Estado conseguiria deixar todo mundo feliz e
satisfeito com sua situação, sem que ninguém precisasse reivindicar seus
interesses). Na República Velha as questões sociais eram tratadas como
"questão de polícia". Essa mudança de visão é um meio de manter a
ordem capitalista ("ORDEM E PROGRESSO"), envolvendo a tentativa de
atrair o povo para um projeto político-econômico elitista. A idéia de
Estado-sujeito é demonstrada em uma comemoração cívica de Vargas no governo em
1931: as bandeiras dos estados brasileiros são retiradas de seus mastros e
queimadas no chão, em seguida, é hasteada a bandeira do Brasil. Isso
representou o fim do federalismo no Brasil (país estranho, pois mantém o nome
“federalista” até hoje). Houve também uma nova constituição por que não se
poderia continuar com uma feita pelo regime político derrubado. Havia um desejo
de eleições limpas no país, mas que só aconteceriam em 1946, depois que Vargas
foi retirado do poder em 1945.

d) A participação popular em
1930 é interpretada como "nula" até hoje - o que é uma conseqüência
do discurso de poder. O povo participou e participa da história, não apenas
observando tudo o que estava acontecendo passivamente. Tirando a participação
do povo, colocou-se os tenentes como "heróis" da “Revolução” de 1930
para apagar a participação popular.