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domingo, 17 de maio de 2020

As vilas operárias em São Paulo no início do século 20


As vilas operárias em São Paulo no início do século 20


Com a disciplina imposta nas vilas operárias, a burguesia pretendia fabricar indivíduos produtivos e submissos, pois, as vilas representam a vontade de impor sutilmente um estilo de vida, através de punições e normas disciplinares, que regem o trabalhador, em todos os lugares: do trabalho ao lazer.
Nas primeiras décadas do século 20, são construídas várias vilas operárias, em geral ligadas a uma fábrica: em São Paulo, Vila Maria Zélia, no Belenzinho; Vila Prudente no Ipiranga; Vila Crespi na Moóca; Vila Nadir Figueiredo, Vila Economizadora, Vila Beltramo, Vila Cerealina, Vila de Votorantim e de Santa Rosália.

As vilas operárias permitem controlar a economia interna do trabalhador e seu próprio tempo fora da esfera do trabalho, diminuindo os lugares em que podia circular. Em 1.916, Jorge Street dizia: “Em redor da fábrica mandarei construir (...) um grande coreto para concertos, salão para representações e baile; escola de canto coral e música, um campo de football, uma grande igreja com batistéiro; um armazém com tudo que o operário possa ter necessidade para sua vida (...) uma escola para os filhos do operário e creches (...). Quis dar ao operário (...) a possibilidade de não precisar sair do âmbito da pequena cidade que fiz construir à margem do rio, nem para a mais elementar necessidade da vida (...) evitar que freqüentem bares, botequins e outros lugares de vício, afastando-os especialmente do álcool e do jogo”.
Street tem claro que deve estabelecer laços emocionais de dependência paternalista, atingindo a família do operário. Enquanto que nas fábricas da família Scarpa o modelo de vila operária se assemelha a uma prisão:
Patrocinado pela sociedade, que gratuitamente dá sede, zelador, água e luz, há uma sociedade de futebol (...) tendo seu campo próprio. (...) Organizam-se festas atraentes sob a rigorosa fiscalização de seus criteriosos diretores”.

O futebol também era (e ainda é) usado como forma de controle. O esporte bretão surge no Brasil como uma prática da elite. Pobre não jogava. Mas após as greves de 1905 à 1918, a prática do futebol foi liberada para os trabalhadores (enquanto que a capoeira foi proibida !). O próprio governo estadual fez campos de várzea para incentivar os operários a se “distrair” - a intenção era eles pararem de fazer greve ! Para poder jogar nos clubes das fábricas, era preciso ter contrato de trabalho e ser bom operário. O que significa que os grevistas não podiam jogar. Tudo para disciplinar e controlar os trabalhadores.
Muitos séculos antes disso, o império romano criou a política do "pão e circo" para diminuir o interesse dos pobres em lutar por seus direitos. Ao que parece, a burguesia brasileira da época aprendeu muito bem a lição. Sobre as horas livres do trabalhador, impõem-se recreações moralizadoras e alienantes, impedindo que cada um use livremente de seu próprio tempo.


As vilas eram cercada por muros, e o acesso à ela totalmente controlado e restrito aos seus moradores. O jornal anarquista “A terra livre” denunciam que “Os operários são obrigados a morar nas casas da Companhia (...) têm também de fazer compras na cooperativa (...), foi proibida entrada aos vendeiros e padeiros: não há remédio senão comprar no armazém da fábrica”.
Não se admitiam mulheres de vida duvidosa, bêbados, nem namoro nos portões, que eram fechados às 21 h, e na Vila Maria Zélia, com o toque de recolher soando. Nas vilas, as crianças que freqüentavam as escolas eram formadas pelas idéias de submissão ao domínio capitalista, denunciava “A Plebe”. Nela se passavam conteúdos altamente repressivos, onde o industrial, a Igreja e o Estado são elevados à condição de personagens principais e tornados santos.
Nas igrejas das vilas, eram propagadas as idéias de tempo útil, trabalho, disciplina, produtividade, pecado e culpa, condenação da ociosidade.
Os regimentos disciplinares também eram externos, como os “códigos de obrigação” da Fábrica Cedro e Cachoeira que proibiam: “Art.1 – Consentir ou dar em casa jogos, batuques ou reuniões imorais, consentir bebedeiras, desordens, espancamentos e tudo o mais que perturbar o sossego público”. “As casas devem ser lavadas a cada oito dias  e cuidadas umas plantas (...) sob pena de multa. Os operários que são encontrados conversando particularmente com uma moça, ou são despedidos, ou obrigados a casar. Quem ri dentro da fábrica é multado” (A Terra Livre).
Ainda sobre a vigilância, a arquitetura reproduz o modelo inglês: as casas são dispostas em torno da fábrica, que permite ao industrial a um só olhar vigiar e controlar o comportamento de muitos. A maioria das vilas tinham casas de tipos e tamanhos diferenciados de acordo com a categoria dos operários. Um exemplo disso é a vila de Paranapiacaba (hoje, distrito de Santo André).