Total de visualizações de página

Mostrando postagens com marcador História do movimento operário europeu. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História do movimento operário europeu. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O movimento operário em luta contra a Revolução Industrial e o capitalismo

O movimento operário em luta contra a Revolução Industrial e o capitalismo

Desde o início da Revolução Industrial, os trabalhadores reagiram às formas de exploração trabalho que os burgueses criaram. Primeiramente, surgiram as sabotagens, as expropriações e o “corpo-mole”. Indignados com a forma como os “patrões” os tratavam, os artesãos das manufaturas queriam voltar a uma sociedade a qual haviam saído há pouco; assim, as primeiras formas de resistência à Revolução Industrial são marcadas por práticas e ideias que eles tinham desde sua migração do campo para as cidades, decorrentes em grande parte por causa dos cercamentos de terras.


No final do século 18, as fábricas surgiram contra essas primeiras formas de luta... (veja o texto O nascimento das fábricas neste blog). 

Nessa nova realidade das “fábricas satânicas” como os trabalhadores as chamavam, estes tiveram que reinventar suas formas de luta contra os burgueses e a exploração. Surgiram trocas de cartas e imprensa sobre a situação dos operários. Nessas, perceber que eram explorados, não importando qual fábrica, setor, cidade ou país estavam, foi um importante fator de CONSCIÊNCIA de pertencer a uma classe social, algo fundamental para a luta.


Nas décadas seguintes surgiram: ligas operárias (uma espécie de sindicatos de várias categorias); associações de ajuda mútua (para operários acidentados, operárias gestantes, idosos etc.); o “luddismo” (os quebradores de máquinas, mas somente das que tiravam empregos); o “cartismo” (levavam cartas aos deputados dos países, no intuito de serem ajudados a sair da situação de miséria e de não ter direitos); passeatas e manifestações... além disso, surgiram as GREVES.

Desde a Roma Antiga, a recusa ao trabalho era chamada de “parada”. Na Paris (França) da Revolução Industrial, os operários – cansados de apanharem da polícia quando faziam as tais paradas e ficavam dentro das fábricas – começam a ir para as praças próximas. No centro da cidade, havia uma praça “Griève”... e o nome da praça “pegou” no movimento... nascia a greve!

Os operários organizavam as greves dias após do recebimento do salário. Assim, aguentavam mais tempo parados. Os patrões já não aguentavam tanto, pois precisavam da produção funcionando para entregar os produtos já comprados pelos comerciantes. Só que, antes de negociar, os patrões chamavam a polícia (!) e era borrachada na cabeça dos trabalhadores...

Por isso, os operários foram para as praças e das praças para as ruas. Parando as ruas, atrapalhando o “trânsito”, eles mostravam para a sociedade a miserável situação na qual trabalhavam e viviam. Atingiam assim, o centro do sistema que os explorava sem dó! Parar as ruas atrapalhavam o sistema capitalista a andar/fluir... Na sociedade capitalista, a rua é o local de circulação de mercadorias, i. e., como o capitalismo transforma tudo em mercadorias, produtos e pessoas, tudo o que circula nas ruas é visto pelo sistema como mercadoria. Quando os trabalhadores param as ruas nas greves estão atingindo em cheio o sistema. Por isso, as mídias hegemônicas (empresas capitalistas de comunicação, grandes conglomerados que monopolizam e distorcem as informações) falam tão mal das greves e as "cobrem" (nos jornais, rádios, tvs) falando apenas do lado negativo: "atrapalham o trânsito", "Atrapalham o cidadão" etc. As mesmas atitudes de parar as ruas, quando feitas por torcedores de futebol não são tão mal faladas pelos mesmos meios de comunicação. Por que será?


As greves foram a principal forma de luta dos trabalhadores. Através delas, eles forçaram os patrões a negociar, conquistaram direitos e melhorias de vida. Mas isso não foi fácil ou rápido. Às vezes, um direito trabalhista demorou décadas para ser formado... e muitas greves... muitas borrachadas... muitas mortes, ocorreram para termos direitos hoje... Para Hannah Arendt, os operários europeus expandiram os direitos do iluminismo para as camadas mais pobres e conquistaram outros mais...

Os primeiros socialistas franceses e ingleses e suas formas de reação à industrialização

Os primeiros socialistas franceses e ingleses e suas formas de reação à industrialização

Entre 1790 e 1830 ocorre a auto-formação da “classe operária”. A consciência de uma identidade de interesses entre diversos grupos de trabalhadores contra os interesses de outras classes aparece com fruto da luta contra a exploração e por direitos políticos e civis na Europa Ocidental,  especialmente na Inglaterra e França.

Desde o século 18 os artesãos já se organizavam contra as formas de exploração que sofriam devido à Revolução Industrial. Desde as “sociedades de correspondência” da década de 1790, passando pelo Luddismo nas primeiras décadas do século 19 até  Cartismo dos anos  de 1830 é importante observar que “a ênfase excessiva sobre o caráter inovador das tecelagens pode levar ao menosprezo da continuidade das tradições políticas e culturais na formação das comunidades da classe operária. Os operários, longe de serem os “filhos primogênitos da revolução industrial”, tiveram nascimento tardio. Muitas das suas idéias e formas de organização foram antecipadas por trabalhadores domésticos. (...) Em muitas cidades, o verdadeiro núcleo de onde o movimento trabalhista retirou suas idéias, organização e liderança era constituído por sapateiros, tecelões, seleiros e fabricantes de arreios, livreiros, impressores, pedreiros, pequenos comerciantes e similares” (Thompson, A maldição de Adão, p. 16). Para estes, “As questões que provocaram maior intensidade de envolvimento foram muito freqüentemente aquelas em que alguns valores, tais como costumes tradicionais, “justiça”, “independência”, segurança ou economia familiar, estavam em risco, ao invés da simples questão do “pão com manteiga” (Idem, p. 27).. Por isso, “é indiscutível que as lembranças do meio rural se incorporaram à cultura da classe operária urbana através de inúmeras experiências pessoais. Durante todo o século 19, o trabalhador urbano manifestou o mesmo rancor contra a “aristocracia rural” que o avô talvez tenha nutrido em segredo. (...) julgava que o latifundiário não tinha “direito” à sua riqueza, ao contrário do industrial, que tinha “conquistado” a sua, ainda que por meios abomináveis” (Ibdem, p. 63/64).

Os quebradores de máquinas, ou ludditas, criaram a primeira forma de reação contra o maquinário e os burgueses que tentavam substituir o homem pelas máquinas. Entre 1812 e 1815 no Centro-oeste da Inglaterra e nas décadas seguintes na Europa continental (França), os seguidores de “Nedd Ludd” ameaçavam os donos das oficinas e não sendo atendidos invadiam as oficinas à noite para quebrar as grandes máquinas. Mas eles não quebravam qualquer máquina, mas apenas aquelas que retiravam muitos empregos e acumulavam o saber-tecnológico, retirando-o do artesão. O movimento luddita foi uma primeira forma de resistência organizada numa época  em que não haviam sindicatos ou um movimento organizado para os trabalhadores se defenderem.

O Cartismo foi um movimento mais “pacífico”, pois pretendiam despertar na sociedade a necessidade de melhorar as condições de vida dos trabalhadores. Eles organizavam passeatas (mesmo proibidas), mandavam cartas aos políticos profissionais (deputados, senadores, etc.) e procuravam organizar candidaturas de pessoas vindas do meio dos operários.

A partir daí, pessoas que defendiam uma “sociedade socialista” – em que não houvesse exploração do homem pelo homem e que as pessoas pudessem ter tempo para o lazer e o descanso – começaram a aparecer no “movimento operário”.

Na França, Saint- Simon pregava a necessidade de fábricas que fossem comandadas pelos próprios trabalhadores, e em que as técnicas de produção não fossem como as da fábrica burguesa (que esfolam as pessoas para que a produção seja maior em menor tempo e com maiores lucros); já C. Fourier queria criar áreas isoladas da sociedade capitalista em que as pessoas trabalhassem e vivessem isoladas como uma sociedade socialista: eram os Falanstérios. Na Inglaterra, um industrial de nome Robert Owen procurou criar em suas fábricas uma espécie de vila socialista em que os trabalhadores, morando ao lado da fábrica, ajudavam a controlar a produção e as demais atividades ligadas àquela comunidade. A maioria dessas tentativas foi frustrada pela impossibilidade de isolamento perante o capitalismo, pois a concorrência da fábrica burguesa arrasava esse projetos.

Entre muitos outros, devemos destacar: as lutas no Parlamento (câmara dos deputados) de L. Blanc, defendendo a aprovação de leis trabalhistas para a classe operária francesa; e, Pierre Joseph-Proudhon que incentivava a criação de diversas associações de ajuda mútua e de cooperação entre os trabalhadores, tais como bancos, escolas entre outros. Após algum tempo Proudhon se converteu ao anarquismo.

O nascimento das fábricas

O nascimento das fábricas

            As ciências humanas tradicionais acreditam que as fábricas “surgiram” porque com as mudanças tecnológicas do início do século XIX, a burguesia não mais conseguia levar as novas máquinas aos diversos pontos em que se espalhavam as manufaturas. No entanto, essa interpretação contém, no mínimo, dois erros. O primeiro é cronológico, pois as máquinas, como processo de eletrificação durante a Revolução Industrial só se difundiram em meados do século XIX e as fábricas “nasceram” no final do século XVIII. Como pode o efeito (a fábrica) acontecer antes da causa (o avanço tecnológico)? Segundo: as reais intenções da burguesia ao constituir um espaço físico determinado para a produção (a fábrica) ficaram – derrubada a primeira hipótese – no ar...
Vejamos como, sob outro ponto de vista, as coisas se encaixam.
A partir do momento em que os mestres começaram a explorar o trabalho de seus semelhantes com fins de obter lucros, os trabalhadores das manufaturas sentiram na pele a exploração e a conseqüente falta de ética profissional que regulava o “preço justo” até então. A resposta foi a resistência dos trabalhadores aos novos métodos da nascente burguesia manufatureira.

            Como as manufaturas funcionavam em um sistema de produção doméstico, e as áreas manufatureiras da Europa Ocidental não eram propriamente em grandes cidades, as casas dos trabalhadores eram ou muito próximas ao local de trabalho ou o próprio. Assim, era muito comum o trabalhador deixar o serviço para fazer outras coisas, tais como descansar o corpo um pouco, dormir e realizar afazeres domésticos. Isso tinha como intenção quebrar a monotonia do trabalho e diminuir a ingerência do burguês sobre a vida dos trabalhadores. É claro que os primeiros não gostavam disso, mas era muito difícil controlar as indas e vindas de trabalhadores no sistema doméstico.

            Além de que a noção de tempo como algo que não se pode perder, ou o tempo útil do sistema capitalista ainda era um sonho na cabeça de alguns burgueses ávidos por lucros maiores. No tempo útil, o sujeito não pode perder tempo com ações ou pensamentos que não lhe tragam algum bem material ou algo similar, pois “Tempo é dinheiro”. No entanto, o ser humano viveu até o século XVIII sendo adepto do tempo cíclico que é o tempo da natureza. Lento, este caminha desritmado. Não há pressa para ordenhar a vaca ou capinar um terreno. O ritmo de trabalho é ditado pelas características naturais do homem (que aí se assemelha a um animal), pois para as necessidades é que se trabalha. Nas sociedades em que o tempo cíclico é predominante, não há a pressa e o estresse característicos da sociedade capitalista.
            Dessa forma, os trabalhadores das manufaturas, a partir da metade do século XVIII intensificaram o “corpo-mole” a fim de diminuir a exploração que vinham sofrendo. Além disso, começou a se tornar comum os trabalhadores expropriarem o burguês, desviando mercadorias prontas ou matérias-primas para obter com a venda “no paralelo” algum dinheiro a mais, ou como os próprios trabalhadores diziam na época: “Estamos pegando aquilo que nos pertence pelo burguês nos explorar”. Era como um bônus a mais no salário, só que sem o burguês aceitar.

            Como resposta a essas investidas dos trabalhadores os diversos burgueses da Europa começam a criar modelos de unidades de produção para controlar os trabalhadores tanto no que tange ao matar-trabalho, quanto aos desvios de produtos de seus bolsos. Foram constituídas centenas de modelos de fábricas por toda a Inglaterra, Bélgica, Holanda, parte da França e atual Alemanha. Porém, contrariando a ideologia capitalista muito em moda hoje, de que tudo o que a burguesia faz dá certo, os modelos de fábricas iam sendo constituídos e sem demora se esfacelavam, quer pela incapacidade de conter os trabalhadores, quer pela concorrência com outras fábricas. Isso demonstra que a ascensão do sistema capitalista não pode ser imaginada como um avanço sem retrocessos ou insucessos (o que é uma idéia corrente nos livros de Geografia e História que tratam da Revolução Industrial). Muitas fábricas falharam, muitos capitalistas empobreceram; a dinâmica de produção sob o domínio do capital acabou por se estabelecer, porém,  em seu início “aos trancos e barrancos”.


            O modelo de fábrica que hoje conhecemos (com apitos, operários que não trazem nada para o local do serviço a não ser sua força de trabalho, a unidade de produção concentrada em grandes plantas, as linhas de produção interligadas, as figuras de mestres e contra-mestres que vigiam os operários e etc) foi uma criação dos burgueses de Manchester (Centro-leste da Inglaterra), e que dali, foi copiada por ter conseguido maiores resultados positivos para as pretensões da burguesia.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

As relações de poder na sociedade capitalista

As relações de poder na sociedade capitalista

Quando falamos em poder, devemos primeiramente salientar a noção de poder como sendo diferente da de AUTORIDADE. Uma relação de autoridade ocorre quando em meio as relações de trabalho, estudo, etc. há posições hierárquicas de comando (chefe/subordinados ou diretor/professor/alunos), em que uma autoridade exerce poder sobre os seus subordinados por estar acima deles na escala hierárquica. O que garante a essa autoridade o exercício de poder, são as regras ou normas que estabelecem o cargo. Exemplo: respeita-se um governante (prefeito, governador ou presidente), pois sabe-se que o desrespeito será incriminado pela lei – que é uma forma de manter a autoridade exercendo poder.
       Sobre o poder, devemos afirmar: “ninguém tem poder”. Quando as pessoas falam que “fulano tem poder”, estão confundindo poder com autoridade. O poder não é um objeto ( algo concreto ) e sim uma forma abstrata de pensamento/ação. O poder se exerce, por isso ele é frágil e instável. Sendo assim, não se exerce poder com fraqueza e/ou sem preocupar-se em mantê-lo, pois, sua instabilidade leva a perda a qualquer momento. Atualmente, a burguesia – a classe que mais exerce poder – criou: leis, meios de comunicação de massa, sistema de Direito e o se apropria cada vez mais do Estado, para manter esse poder. Perceba que o exercício do poder está em oposição ao exercício da liberdade.
      No entanto, as relações de poder não ocorrem somente do Estado ou do sistema de direito em direção às pessoas, ou seja, de uma instituição para o sujeito social. As relações de poder também se exercem em um espaço menor, em relações individuais ou conjuntas entre os indivíduos (sem a intervenção do Estado ou de leis, direito, etc.). Assim, em todas as relações sociais há poder a ser exercido e aquele que estiver melhor preparado, irá exercê-lo. Dentro de casa, ou nos grupos da escola, sempre há alguém que tem maior saber, logo exerce poder sobre os outros. Então:

                     O saber leva ao exercício do poder

       Isso ocorre porque que adquire saber sobre algo, acaba sendo uma “autoridade” naquilo. Agora, vejamos uma comparação entre formas de exercício de poder na sociedade capitalista e escravista:
·         Em uma sociedade escravista, os trabalhadores são forçados pelo chicote e berro a obedecer e resistem a isso, pois as relações de poder são muito negativas e claras para os escravos.
·      Na sociedade capitalista, pelo contrário, o indivíduo atingido pela disciplinarização e adestramento recebe em troca algum benefício pela sua obediência e, por isso, sente orgulho de ser dominado; além disso, se exercita cada vez mais para obedecer e se tornar melhor no que faz. Logo, na sociedade em que vivemos as relações de poder são positivas. Com ela, o sujeito está ao mesmo tempo, ganhando força econômica (no sentido de render mais no trabalho pelo seu aperfeiçoamento) e perdendo força política (pois é individualizado e perde sua força de contestação e decisão de seu próprio futuro enquanto membro de uma classe social).
As relações de poder na sociedade capitalista foram modeladas a partir do século XVIII na Europa e no XIX no Brasil. O modelo básico de instituição que propagou as relações de poder foi a penitenciária. A partir dela as relações de poder das outras instituições foram sendo moldadas: escolas, exércitos, empresas, igrejas, etc.
            No século XVIII, Jeremy Bentham criou, a partir de uma idéia que seu irmão teve ao visitar o zoológico de Paris, uma instituição modelo: o PANOPTICAM. Nele há uma sala central circulada por salas cumpridas e perpendiculares ( as celas ), onde as divisórias entre sala central/salas cumpridas são de vidro para que a pessoa que está na sala central possa vigiar as demais que estão nas celas.  Portanto, um empresário, padre, professor, diretores de presídio e oficial do exército, pode assim, controlar os indivíduos que estão sob seu olhar, sejam eles: operários, beatos, alunos, presidiários ou soldados. 
Numa prisão, o Panopticam funciona mais ou menos assim: com auxílio da luz externa, aquele que está na sala central exerce poder de vigilância o tempo todo sobre os indivíduos das celas. Então, perceba: Vigiar é a palavra chave para manter as relações de poder na sociedade capitalista. Segundo o pensador e historiador francês Michel Foucault  é “mais eficaz vigiar que punir” (Microfísica do poder, p. 130, Graal).




A punição é muito “cara” àqueles que exercem poder, por isso, se houver vigilância há um menor desgaste do poder. Um exemplo comparativo para entender melhor:
a)  Em uma sociedade escravista, um feitor exerce poder diretamente sobre o escravo por meios violentos, desgastando-o até certo ponto em que o escravo nunca aceita sua condição de cativo.
b) Um patrão capitalista não exerce seu poder diretamente sobre o operário, ele cria uma série de mecanismos de vigilância e de auto - disciplina  que economizam esforços do patrão. Portanto não é preciso ficar o tempo todo de olho nos trabalhadores, por isso, não há uma exposição do poder ao desgaste que é natural às relações de poder entre dominador e dominado.

Existem duas formas de adestramento ligadas às relações de poder:
1 – A punição por representação: o indivíduo punido serve de “mau exemplo” aos outros, que temem sofrer a mesma punição e ser igual a ele. No entanto, este tipo de punição pode gerar uma grande insatisfação nos indivíduos atingidos se estes acharem que a punição ao “mau-indivíduo” for injusta, por isso, pode haver revolta do grupo de dominados contra os dominadores.
2 – Vigilância por adestramento ou auto - disciplina: esta é própria do sistema capitalista. O indivíduo ao ser incorporado à sociedade capitalista é treinado a obedecer as leis e regras (que não foram criadas por ele) e, mesmo que conscientemente ele não perceba, segue as “normas sociais” e recebe por sua obediência “algo” em troca:

- Em casa, os pais iniciam sobre a criança o obediência cega às ordens, sem que haja a explicação racional dos “porquês”. Além disso, como muitos pais não sabem o “porque” de várias coisas, pois estão apenas reproduzindo o que aprenderam, acabam utilizando-se de violência contra a criança para manter seu exercício de poder.
- Na escola, as posturas e crenças consideradas erradas são modeladas pelos valores burgueses, que estão nos conteúdos, nas ideologias de professores, na forma de relação aluno – instituição, como por exemplo na imposição das regras sobre o comportamento dos alunos. As aulas de educação física servem para disciplinar e também descarregar as tensões sofridas no dia – a – dia. A finalidade da escola deixa de ser o aprendizado da ciência, das artes, do livre-pensar para se tornar a adequação dos corpos ao regime disciplinar.
- Na igreja, há uma troca de obediência/disciplina pela “salvação” e por conforto espiritual (com palavras de incentivo e resignação / conformismo). O sujeito que quer chegar a ser “salvo” deve arcar se frente as ordens que a igreja coloca sobre suas cabeças e nunca questionar nada. Muitas pessoas gritam ou choram nas igrejas, emocionadas com os discursos emotivos dos sacerdotes, aliviando a tensão a que estão sujeitas.
- No trabalho, as ordens são feitas e estamos sujeitos à elas para podermos sobreviver. A hierarquia dos cargos é fundamental para que o orgulho daqueles que tem cargos mais altos (e melhores salários) seja transformado em vigilância sobre os outros indivíduos da empresa. Assim, todos vigiam todos. 
- Na televisão, pela própria característica do meios de comunicação, as mensagens são recebidas sem que possamos respondê-las, o sujeito fica, então, preso a não pensar em como desenvolver as idéias que a TV lhe passa – pois a quantidade de informações é rápida demais para processá-las e criticá-las. Ao se colocar como os “salvadores da sociedade” (propondo resolver os problemas em lugar das próprias pessoas e classes sociais), a mídia elabora, o discurso de conformismo, uma idéia de que o indivíduo deve agir de acordo com os estímulos que os meios de comunicação de massa (MCM) lhe dão, retirando do sujeito a criatividade e o pensamento crítico, deixando-o aberto a receber o exercício do poder da TV, rádio, governantes, patrões, etc. Os MCM reforçam e adestram mais eficazmente para a disciplina que os outros meios criaram.

Assim, ao não questionar nada e obedecer a tudo que lhe é imposto, ele acaba por agradar às outras pessoas, reforçando as relações de poder positivas da sociedade capitalista e aumentando gradativamente seu orgulho por ser um “bom” filho, aluno, beato, trabalhador. No entanto, além disso, a criatividade e o raciocínio do indivíduo são modelados para que ele apenas saiba fazer as coisas sempre do mesmo jeito (como operários de chão de fábrica), e ao não conhecer as possíveis formas de mudança e transformação social, o sujeito passa a ser objeto, pois, perde sua liberdade...
 Nesta forma de vigilância e controle sobre o indivíduo, este sofre uma correção dos hábitos, costumes, credos, valores culturais e posturas (chamados de “errados”) que não são considerados “bons” para a sociedade burguesa, e por isso, são substituídos por outros: os valores clérigos – burgueses, estes, valores ditos “corretos”. Isso dá-se com o aprendizado pelo indivíduo de disciplina (obedecer é fruto de orgulho próprio e, mais importante do que a própria liberdade), hierarquia (a divisão de cargos e funções cria uma escala de quem deve obedecer quem e, a vigilância é horizontal, ou seja, todos vigiam todos), exercícios (é o adestramento pela repetição. Para aperfeiçoar o indivíduo, fazendo-o gostar do que lhe é imposto, repete-se várias vezes o exercício, treinando gestos e posturas, fazendo-o adquirir valores clérigos – burgueses).
É evidente que estas relações de poder não são perceptíveis/visíveis facilmente e nem a todos os indivíduos, mas em muitas vezes, o sujeito se revolta (mesmo sem saber o porque disso) atacando àquele que está mais próximo e que ele identifica como o opressor; exemplo: o aluno, repreendido em casa, no trabalho e nas ruas acaba atacando o professor que ele identifica como inimigo, descontando toda sua raiva social na escola. A partir daí, o sistema de direito e as próprias pessoas se incumbem de tratar destes “delinqüentes”, excluindo-os do convívio social, aumentando a opressão e reproduzindo as relações de poder capitalistas. Para Foucault, a principal função da escola (como da fábrica e da prisão) é DISCIPLINAR o aluno. Assim, o aprendizado dos conteúdos ficam em segundo ou terceiro plano, importando menos do que o receber e o acatar as regras da sociabilidade burguesa.
As idéias do Panopticam não precisam ser utilizadas em conjunto atualmente, podendo ser usados em separado. Exemplos: em um banco ou empresa, onde as divisórias entre os micro - escritórios são baixas ou de vidro, ou ainda inexistem, para que cada um vigie o outro e todos façam seus “trabalhos” sem interrupções, pausas ou relaxamento; quando um novo método de trabalho ou desenho de uma peça vem pronto da matriz (estrangeira), reforçando a relação de que quem tem saber, exerce poder.
Neste mesmo sentido, na escola, o fato de professor trazer o saber já pronto e jogá-lo sobre os alunos; ter palco, para ficar em posição de destaque (acima de todos); estabelecer metas e regras que não condizem com a realidade do aluno; e excluir os chamados “alunos – problemas” do convívio de sala de aula também são formas de continuidade das relações e poder capitalistas.
Mesmo afirmando que a estruturação desses mecanismos de poder que você acabou de ler, são um projeto da burguesia para o mundo, e portanto como todas as regras, tem exceções não é impróprio afirmar que enquanto essas relações de poder não forem modificadas – pelos próprios homens – nada mudará.

Bibliografia:

ARENDT, Hannah. Que é autoridade?, in: Entre o passado e o futuro. SP, Perspectiva, 1.972. Cap. 3, pp. 127 – 187.

Foucault, Michel. Microfísica do Poder (org. e trad.: Roberto Machado). RJ, Graal, 1.999, 14ª ed.. Biblioteca de filosofia e história das ciências, vol.: 07.


________________. Vigiar e punir – nascimento das prisões. (trad. Raquel Ramalhete) Petrópolis, Vozes, 1.998, 17 ª ed..


Link para vídeo-aula:

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Os primeiros socialistas franceses e ingleses e suas formas de reação à industrialização



Os primeiros socialistas franceses e ingleses e suas formas de reação à industrialização


Entre 1790 e 1830 ocorre a auto-formação da “classe operária”. A consciência de uma identidade de interesses entre diversos grupos de trabalhadores contra os interesses de outras classes aparece com fruto da luta contra a exploração e por direitos políticos e civis na Europa Ocidental,  especialmente na Inglaterra e França.

Desde o século 18 os artesãos já se organizavam contra as formas de exploração que sofriam devido à Revolução Industrial. Desde as “sociedades de correspondência” da década de 1790, passando pelo Luddismo nas primeiras décadas do século 19 até  Cartismo dos anos  de 1830 é importante observar que “a ênfase excessiva sobre o caráter inovador das tecelagens pode levar ao menosprezo da continuidade das tradições políticas e culturais na formação das comunidades da classe operária. Os operários, longe de serem os “filhos primogênitos da revolução industrial”, tiveram nascimento tardio. Muitas das suas idéias e formas de organização foram antecipadas por trabalhadores domésticos. (...) Em muitas cidades, o verdadeiro núcleo de onde o movimento trabalhista retirou suas idéias, organização e liderança era constituído por sapateiros, tecelões, seleiros e fabricantes de arreios, livreiros, impressores, pedreiros, pequenos comerciantes e similares” (Thompson, A maldição de Adão, p. 16). Para estes, “As questões que provocaram maior intensidade de envolvimento foram muito freqüentemente aquelas em que alguns valores, tais como costumes tradicionais, “justiça”, “independência”, segurança ou economia familiar, estavam em risco, ao invés da simples questão do “pão com manteiga” (Idem, p. 27).. Por isso, “é indiscutível que as lembranças do meio rural se incorporaram à cultura da classe operária urbana através de inúmeras experiências pessoais. Durante todo o século 19, o trabalhador urbano manifestou o mesmo rancor contra a “aristocracia rural” que o avô talvez tenha nutrido em segredo. (...) julgava que o latifundiário não tinha “direito” à sua riqueza, ao contrário do industrial, que tinha “conquistado” a sua, ainda que por meios abomináveis” (Ibdem, p. 63/64).

Os quebradores de máquinas, ou ludditas, criaram a primeira forma de reação contra o maquinário e os burgueses que tentavam substituir o homem pelas máquinas. Entre 1812 e 1815 no Centro-oeste da Inglaterra e nas décadas seguintes na Europa continental (França), os seguidores de “Nedd Ludd” ameaçavam os donos das oficinas e não sendo atendidos invadiam as oficinas à noite para quebrar as grandes máquinas. Mas eles não quebravam qualquer máquina, mas apenas aquelas que retiravam muitos empregos e acumulavam o saber-tecnológico, retirando-o do artesão. O movimento luddita foi uma primeira forma de resistência organizada numa época  em que não haviam sindicatos ou um movimento organizado para os trabalhadores se defenderem.

O Cartismo foi um movimento mais “pacífico”, pois pretendiam despertar na sociedade a necessidade de melhorar as condições de vida dos trabalhadores. Eles organizavam passeatas (mesmo proibidas), mandavam cartas aos políticos profissionais (deputados, senadores, etc.) e procuravam organizar candidaturas de pessoas vindas do meio dos operários.

A partir daí, pessoas que defendiam uma “sociedade socialista” – em que não houvesse exploração do homem pelo homem e que as pessoas pudessem ter tempo para o lazer e o descanso – começaram a aparecer no “movimento operário”.

Na França, Saint- Simon pregava a necessidade de fábricas que fossem comandadas pelos próprios trabalhadores, e em que as técnicas de produção não fossem como as da fábrica burguesa (que esfolam as pessoas para que a produção seja maior em menor tempo e com maiores lucros); já C. Fourier queria criar áreas isoladas da sociedade capitalista em que as pessoas trabalhassem e vivessem isoladas como uma sociedade socialista: eram os Falanstérios. Na Inglaterra, um industrial de nome Robert Owen procurou criar em suas fábricas uma espécie de vila socialista em que os trabalhadores, morando ao lado da fábrica, ajudavam a controlar a produção e as demais atividades ligadas àquela comunidade. A maioria dessas tentativas foi frustrada pela impossibilidade de isolamento perante o capitalismo, pois a concorrência da fábrica burguesa arrasava esse projetos.

Entre muitos outros, devemos destacar: as lutas no Parlamento (câmara dos deputados) de L. Blanc, defendendo a aprovação de leis trabalhistas para a classe operária francesa; e, Pierre Joseph-Proudhon que incentivava a criação de diversas associações de ajuda mútua e de cooperação entre os trabalhadores, tais como bancos, escolas entre outros. Após algum tempo Proudhon se converteu ao anarquismo.