O nascimento das fábricas
As ciências humanas tradicionais
acreditam que as fábricas “surgiram” porque com as mudanças tecnológicas do
início do século XIX, a burguesia não mais conseguia levar as novas máquinas
aos diversos pontos em que se espalhavam as manufaturas. No entanto, essa
interpretação contém, no mínimo, dois erros. O primeiro é cronológico, pois as
máquinas, como processo de eletrificação durante a Revolução Industrial só se
difundiram em meados do século XIX e as fábricas “nasceram” no final do século
XVIII. Como pode o efeito (a fábrica) acontecer antes da causa (o avanço
tecnológico)? Segundo: as reais intenções da burguesia ao constituir um espaço
físico determinado para a produção (a fábrica) ficaram – derrubada a primeira
hipótese – no ar...
Vejamos como, sob outro ponto de vista,
as coisas se encaixam.
A partir do momento em que os mestres
começaram a explorar o trabalho de seus semelhantes com fins de obter lucros,
os trabalhadores das manufaturas sentiram na pele a exploração e a conseqüente
falta de ética profissional que regulava o “preço justo” até então. A resposta
foi a resistência dos trabalhadores aos novos métodos da nascente burguesia
manufatureira.
Como as
manufaturas funcionavam em um sistema de produção doméstico, e as áreas
manufatureiras da Europa Ocidental não eram propriamente em grandes cidades, as
casas dos trabalhadores eram ou muito próximas ao local de trabalho ou o próprio.
Assim, era muito comum o trabalhador deixar o serviço para fazer outras coisas,
tais como descansar o corpo um pouco, dormir e realizar afazeres domésticos.
Isso tinha como intenção quebrar a monotonia do trabalho e diminuir a
ingerência do burguês sobre a vida dos trabalhadores. É claro que os primeiros
não gostavam disso, mas era muito difícil controlar as indas e vindas de
trabalhadores no sistema doméstico.
Além de que
a noção de tempo como algo que não se pode perder, ou o tempo útil do sistema capitalista ainda era um sonho na cabeça de
alguns burgueses ávidos por lucros maiores. No tempo útil, o sujeito não pode
perder tempo com ações ou pensamentos que não lhe tragam algum bem material ou
algo similar, pois “Tempo é dinheiro”. No entanto, o ser humano viveu até o
século XVIII sendo adepto do tempo
cíclico que é o tempo da natureza. Lento, este caminha desritmado. Não há
pressa para ordenhar a vaca ou capinar um terreno. O ritmo de trabalho é ditado
pelas características naturais do homem (que aí se assemelha a um animal), pois
para as necessidades é que se trabalha. Nas sociedades em que o tempo cíclico é
predominante, não há a pressa e o estresse característicos da sociedade
capitalista.
Dessa
forma, os trabalhadores das manufaturas, a partir da metade do século XVIII
intensificaram o “corpo-mole” a fim de diminuir a exploração que vinham
sofrendo. Além disso, começou a se tornar comum os trabalhadores expropriarem o
burguês, desviando mercadorias prontas ou matérias-primas para obter com a venda
“no paralelo” algum dinheiro a mais, ou como os próprios trabalhadores diziam
na época: “Estamos pegando aquilo que nos pertence pelo burguês nos explorar”.
Era como um bônus a mais no salário, só que sem o burguês aceitar.
Como
resposta a essas investidas dos trabalhadores os diversos burgueses da Europa
começam a criar modelos de unidades de produção para controlar os trabalhadores
tanto no que tange ao matar-trabalho, quanto aos desvios de produtos de seus
bolsos. Foram constituídas centenas de modelos de fábricas por toda a
Inglaterra, Bélgica, Holanda, parte da França e atual Alemanha. Porém,
contrariando a ideologia capitalista muito em moda hoje, de que tudo o que a
burguesia faz dá certo, os modelos de fábricas iam sendo constituídos e sem demora
se esfacelavam, quer pela incapacidade de conter os trabalhadores, quer pela
concorrência com outras fábricas. Isso demonstra que a ascensão do sistema
capitalista não pode ser imaginada como um avanço sem retrocessos ou insucessos
(o que é uma idéia corrente nos livros de Geografia e História que tratam da
Revolução Industrial). Muitas fábricas falharam, muitos capitalistas
empobreceram; a dinâmica de produção sob o domínio do capital acabou por se
estabelecer, porém, em seu início “aos
trancos e barrancos”.
O modelo de
fábrica que hoje conhecemos (com apitos, operários que não trazem nada para o
local do serviço a não ser sua força de trabalho, a unidade de produção
concentrada em grandes plantas, as linhas de produção interligadas, as figuras
de mestres e contra-mestres que vigiam os operários e etc) foi uma criação dos
burgueses de Manchester (Centro-leste da Inglaterra), e que dali, foi copiada
por ter conseguido maiores resultados positivos para as pretensões da
burguesia.




