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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O nascimento das fábricas

O nascimento das fábricas

            As ciências humanas tradicionais acreditam que as fábricas “surgiram” porque com as mudanças tecnológicas do início do século XIX, a burguesia não mais conseguia levar as novas máquinas aos diversos pontos em que se espalhavam as manufaturas. No entanto, essa interpretação contém, no mínimo, dois erros. O primeiro é cronológico, pois as máquinas, como processo de eletrificação durante a Revolução Industrial só se difundiram em meados do século XIX e as fábricas “nasceram” no final do século XVIII. Como pode o efeito (a fábrica) acontecer antes da causa (o avanço tecnológico)? Segundo: as reais intenções da burguesia ao constituir um espaço físico determinado para a produção (a fábrica) ficaram – derrubada a primeira hipótese – no ar...
Vejamos como, sob outro ponto de vista, as coisas se encaixam.
A partir do momento em que os mestres começaram a explorar o trabalho de seus semelhantes com fins de obter lucros, os trabalhadores das manufaturas sentiram na pele a exploração e a conseqüente falta de ética profissional que regulava o “preço justo” até então. A resposta foi a resistência dos trabalhadores aos novos métodos da nascente burguesia manufatureira.

            Como as manufaturas funcionavam em um sistema de produção doméstico, e as áreas manufatureiras da Europa Ocidental não eram propriamente em grandes cidades, as casas dos trabalhadores eram ou muito próximas ao local de trabalho ou o próprio. Assim, era muito comum o trabalhador deixar o serviço para fazer outras coisas, tais como descansar o corpo um pouco, dormir e realizar afazeres domésticos. Isso tinha como intenção quebrar a monotonia do trabalho e diminuir a ingerência do burguês sobre a vida dos trabalhadores. É claro que os primeiros não gostavam disso, mas era muito difícil controlar as indas e vindas de trabalhadores no sistema doméstico.

            Além de que a noção de tempo como algo que não se pode perder, ou o tempo útil do sistema capitalista ainda era um sonho na cabeça de alguns burgueses ávidos por lucros maiores. No tempo útil, o sujeito não pode perder tempo com ações ou pensamentos que não lhe tragam algum bem material ou algo similar, pois “Tempo é dinheiro”. No entanto, o ser humano viveu até o século XVIII sendo adepto do tempo cíclico que é o tempo da natureza. Lento, este caminha desritmado. Não há pressa para ordenhar a vaca ou capinar um terreno. O ritmo de trabalho é ditado pelas características naturais do homem (que aí se assemelha a um animal), pois para as necessidades é que se trabalha. Nas sociedades em que o tempo cíclico é predominante, não há a pressa e o estresse característicos da sociedade capitalista.
            Dessa forma, os trabalhadores das manufaturas, a partir da metade do século XVIII intensificaram o “corpo-mole” a fim de diminuir a exploração que vinham sofrendo. Além disso, começou a se tornar comum os trabalhadores expropriarem o burguês, desviando mercadorias prontas ou matérias-primas para obter com a venda “no paralelo” algum dinheiro a mais, ou como os próprios trabalhadores diziam na época: “Estamos pegando aquilo que nos pertence pelo burguês nos explorar”. Era como um bônus a mais no salário, só que sem o burguês aceitar.

            Como resposta a essas investidas dos trabalhadores os diversos burgueses da Europa começam a criar modelos de unidades de produção para controlar os trabalhadores tanto no que tange ao matar-trabalho, quanto aos desvios de produtos de seus bolsos. Foram constituídas centenas de modelos de fábricas por toda a Inglaterra, Bélgica, Holanda, parte da França e atual Alemanha. Porém, contrariando a ideologia capitalista muito em moda hoje, de que tudo o que a burguesia faz dá certo, os modelos de fábricas iam sendo constituídos e sem demora se esfacelavam, quer pela incapacidade de conter os trabalhadores, quer pela concorrência com outras fábricas. Isso demonstra que a ascensão do sistema capitalista não pode ser imaginada como um avanço sem retrocessos ou insucessos (o que é uma idéia corrente nos livros de Geografia e História que tratam da Revolução Industrial). Muitas fábricas falharam, muitos capitalistas empobreceram; a dinâmica de produção sob o domínio do capital acabou por se estabelecer, porém,  em seu início “aos trancos e barrancos”.


            O modelo de fábrica que hoje conhecemos (com apitos, operários que não trazem nada para o local do serviço a não ser sua força de trabalho, a unidade de produção concentrada em grandes plantas, as linhas de produção interligadas, as figuras de mestres e contra-mestres que vigiam os operários e etc) foi uma criação dos burgueses de Manchester (Centro-leste da Inglaterra), e que dali, foi copiada por ter conseguido maiores resultados positivos para as pretensões da burguesia.