Subsídios para entender o filme “A MatadeirA” de Jorge Furtado
Cada um dos lados da
Guerra de Canudos tinha sua “verdade”. Os moradores do arraial acreditavam na
volta do Messias, no fim dos tempos em 1900 – tradição religiosa forte na
igreja católica desde a medievalidade; Já o governo, criou uma “verdade” para
atender aos seus interesses: a ideia de que Canudos era monarquista e estaria
se opondo rebeldemente aos “ideais da modernidade”. No entanto, nem mesmo os
membros do governo sabiam exatamente o que eram esses “ideais da modernidade”.
Copiavam do modelo europeu hegemônico as aspirações de uma República que se
dizia moderna e que tinha acabado com o governo “enferrujado” de D. Pedro II. A
ideia de que a ciência era a única forma de entender e mudar a realidade,
através da racionalidade moderna, se opunha, na cabeça desses filhos do cientificismo do
século XIX, ao fanatismo religioso dos adeptos de Antonio Conselheiro.
Estabeleciam-se verdades absolutas nas mentes desses republicanos: Razão X
Emoção, Ciência X Fé, Progresso X Atraso, Bem X Mal, Civilização X Barbárie...
e Canudos representava tudo o que ocorria de ruim. Interessante salientar que,
pelo lado de Canudos, o mal estava na República e em sua cobrança de impostos
por pessoas e, o bem do lado deles, crente de uma salvação dos ímpios e puros
seguidores de Conselheiro.
Na cena em que
crianças atacam o canhão com pedaços de paus nas mãos, as crianças representam
o desconhecimento que os sertanejos tinham da modernidade. Essa que os atacava
com canhões e uma lógica destrutiva que marcam a História recente da humanidade,
pois representam o avanço do capitalismo e o uso de sua racionalidade na arte
da guerra. Com o uso de crianças o diretor demonstra que àqueles que se opõe à
modernidade não sabem o que estão enfrentando. A cena termina com crianças
mortas na atualidade, pois a modernidade esmaga todos àqueles que, não se
inserindo nela, querem fazer parte desta. É o caso de milhares de crianças que,
vendo as “beneficies” da modernidade na TV e na internet nos dias atuais,
buscam meios ilegais para consumir o que o sistema diz que é “legal”, “moda”,
“correto” etc. – as grandes cidades brasileiras são repletas de assassinatos de
crianças que eram pequenos “bandidos”. Assassinatos esses geralmente
encomendados por comerciantes, traficantes, milícias etc.
Por isso, a História
a que a narradora se refere é a do capitalismo, que nos últimos 400 anos criou
as guerras mais destrutivas e genocidas da História. Como a matadeira
representa a modernidade capitalista, as pessoas que passaram a sua frente
morreram, isto é, a civilização europeia usou de seu poderio militar para se
sustentar ao longo desse período. Exemplos disso, estão no Estado Absolutista
com a ideia da “Última razão dos reis”; nos genocídios da conquista da América
e do neocolonialismo. O cartão de visitas da Europa é um canhão. Por isso a
frase “A grande máquina é a História”. Grande Máquina pode ser visto como o
“canhão” simbolizando os genocídios que a Europa realizou, mas é –
simultaneamente – o próprio capitalismo industrial em sua racionalidade
científica encarnada na máquina da Revolução Industrial.