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quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

“Idade Medieval, idade das trevas?”


“Idade Medieval, idade das trevas?”

             Costumeiramente estuda-se o período que abrange os séculos 5 ao 15 como uma época em que não houve grandes avanços nos campos científicos e culturais da civilização ocidental; mas, a sociedade moldada pós-destruição do Império Romano era igual aquela que lançou homens ao mar, inventou diversas inovações tecnológicas como a imprensa e desenvolveu a filosofia escolástica? O conhecimento produzido durante esses dez séculos teria ficado só no âmbito da Igreja? Há como em um período tão longo, não haver nenhum avanço cultural-científico? A resposta é complexa!
            Primeiramente, como surgiu essa ideia? Ainda hoje, muitas pessoas a reproduzem e frequentemente falam da “Idade das Trevas”.
            No entanto, para que possamos entender esse processo de formação desse imaginário social é necessário irmos mais adiante, penetrando já na Idade Moderna e, especialmente, no Movimento Renascentista: Durante os séculos 15 e 16, a Europa viveu um processo de intenso desenvolvimento artístico-filosófico-cultural-científico que se caracterizou pelo nome de “Renascença”. Como o próprio nome diz, as pessoas desse movimento autodenominavam-se como portadores do “renascer“ da cultura clássica greco-romana. A Renascença era, para os homens que o viveram, segundo sua mentalidade, a volta da cultura europeia a luz, a claridade (algo onde o homem pode guiar-se, pois onde há luz, vê-se o caminho). Logo, para esse pensamento, se no século 16 há um renascimento é porque, pressupostamente houve um período de Trevas, de escuridão, onde o homem não podia ver o caminho em que trilhava, seguindo-o cegamente; para os homens – inventores, artistas, pensadores – esse período nefasto da história humana seria a Idade Média.
            Percebe-se que, ao jogar a Idade Média como um período de trevas, o movimento cultural-científico da Idade Moderna, o Renascimento estava legitimando-se, numa época em que a sociedade tem ainda uma mentalidade própria da Idade Média; pois como disse o historiador medievalista Jacques Le Goff, a mentalidade de uma época é imperceptível à mudança, enquadrando-se no que Ferdinand Braudel chamou de tempo “longa duração”.
            A ideia da “Idade das Trevas” foi trabalhada pelos “renascentistas” de diversas maneiras, ora confrontando-se com alguns dogmas religiosos, como por exemplo, através das artes sacras e a humanização dos corpos dos santos; ora criando no imaginário popular de que a Igreja tinha aprisionado o conhecimento, e por isso, teria impedido o homem de cruzar os mares à procura de riquezas, por causa das lendas que se criavam sobre monstros marinhos ou de a Terra ser plana.
            O homem que adentrava a Idade Moderna tinha em si, a ideia do geocentrismo da Terra, do maniqueísmo entre o bem e o mal. Essa mentalidade estava muito presente, por exemplo, em diversos homens que vieram para a América, sendo seu exemplo mais fiel, Colombo; enquanto que o homem “renascentista” pensava o como o homem como centro do universo e não apenas Deus (acusando a Igreja Católica de guiar os homens à escuridão do Teocentrismo).
            Então, o ideário renascentista criou sobre a Idade Média um imaginário social e um discurso que a representava como a Idade das Trevas, justamente para justificar um outro discurso subsequente de um novo tempo baseado na luz do conhecimento humano: racionalismo, antropocentrismo, etc.
            Por outro lado, a tentativa de influencia da Igreja sobre a vida das pessoas e a criação de um imaginário social voltado para os valores teológicos, em que nada poderia sair do âmbito dos valores religiosos aprisionaram o homem em um mundo que só o fazia pensar a partir daquilo que a Igreja dizia que era possível pensar, viver ou fazer. Nesse aspecto não houve só uma estagnação, mas um retrocesso, pois os valores democráticos, republicanos, humanistas, artísticos e filosóficos que os gregos e romanos criaram nas suas sociedades foram abafados pela sociedade medieval da época (mesmo que um teólogo como Santo Agostinho faça de Aristóteles – grande filósofo grego – sua inspiração, isso não chegava à população - tal como ocorreu com o desenvolvimento cultural que os gregos de Atenas tiveram, por exemplo). Esse retrocesso ocorreu principalmente na chamada Alta Idade Média (séculos 5 ao 10) e foi anemizado por um florescimento cultural na Baixa Idade Média (séc. 10 ao 15), especialmente a partir de meados do século 13.
            No entanto, grande parte do que poderia ter sido um florescimento cultural dos séculos 12 e 13 foi “abafado” pela Igreja Cristã, pois esta atacou as comunas autônomas (burgos que se emancipavam), bem como perseguiu e queimou nas fogueiras da Santa Inquisição diversas seitas hereges (herege vem do latim heresium, “aquele que tem outra opinião”) e pagãs do continente.
Pro tudo isso, o pensamento da época ficou restrito à Igreja e se desenvolveu dentro de suas paredes. Por exemplo, a filosofia escolástica deu início ao desenvolvimento do racionalismo – e o renascimento irá utilizar. Mas a Igreja monopolizava o conhecimento da época não o divulgando a população, o que mostra que, nesse aspecto, o pensamento renascentista tem certa razão sobre a “Idade das Trevas”. No entanto, fora de âmbito da Igreja, ou indiretamente relacionado a ela, os avanços laicos também ocorreram. A medicina feita por feiticeiras e povos não-cristãos, como os judeus, não seguiam a norma imposta pela Igreja de não-violação do corpo (violar a “morada da alma” seria um pecado).
            A variedade de músicas e ritmos foi bastante grande, especialmente com os cantos gregorianos e nas músicas populares entoadas nas ruas, praças através de festas populares ou por trovadores, ou a arte popularesca dos menestréis criando poesias cantadas, como as cantigas de amigo e de amor ou as cantigas ou de mal dizer, em meio às festas populares com bebidas, danças e representações artísticas e religiosas. Sendo estas as de maior ocorrência, que demonstram a população ligada ao espírito cristão. O surgimento do Carnaval no último dia da Quaresma é parte dessa relação.
No fim da Alta Idade Média, a criação de um imaginário pagão vindo dos servos e da baixa nobreza e chamado de “Maravilhoso” era composto de uma série de monstros e seres antropomórficos e se estendeu por muito tempo na mentalidade das pessoas. O “Maravilhoso” era uma forma de contrapor a pregação da Igreja Cristã de que as pessoas mais simples criavam “ilusões”, “miragens” para não aceitar o que o dogma religioso os impunha. É, nas palavras do historiador Jacques Le Goff, uma forma de “resistência a ideologia oficial da época”. A igreja cristã, por sua vez, percebeu que não adiantava apenas combater essas ideias. (Se assim o fizesse, ela perderia força e desapareceria). Então, não atacava todas essas manifestações do Maravilhoso como “bruxaria” (o que era a prática comum da Santa Inquisição) mas, canalizava algumas delas para a aceitação das ideias religiosas da própria igreja cristã pelas pessoas comuns. As “miragens” vistas por estas eram “transformadas” em santos da Igreja Cristã (católica), por exemplo.
            Todas essas formas de manifestações culturais, sejam elas populares ou eclesiásticas, serviram de meio divulgador de informação e cultura na Idade Média.
            Por fim, além dos já citados desenvolvimentos na arquitetura, há também a criação do moinho de vento ou do hidráulico, do arado puxado por força animal, do relógio mecânico, das lentes para correção visual, dos fossos de proteção dos castelos feudais e de um melhor manuseio do ferro pelo homem.