Total de visualizações de página

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Os cercamentos de terras

 Os cercamentos de terras

Entre os séculos 17 e 19 ocorreu em grande parte da Europa um processo de tomada das terras das comunidades rurais conhecido como Cercamentos ou “Enclosures”. Os cercamentos são uma pré-condição para a Revolução Industrial acontecer.

Existiram dois tipos de cercamentos:
(a)   o primeiro era o cercamento por compra das terras pelos burgueses ou a simples colocação de cercas pelos nobres nas terras comunais das aldeias. A intenção era usar a terra para o plantio de matérias primas para indústrias (como o algodão e a lã) e para a produção de alimentos com maquinário (ambas eram formas de produção que dispensavam a mão de obra).
(b)   Como as comunidades resistiram à perda de seus direitos e costumes de uso da terra para sobrevivência, as elites européias criaram o cercamento parlamentar, em que era aprovada uma lei que punia todos aqueles que se opusessem aos cercamentos. Como escreveu o historiador inglês E. P. Thompson, os cercamentos foram um autêntico “roubo de classe”.
Os cercamentos foram uma forma de acumulação de capital que as elites européias arranjaram para poder enriquecer e que acabou por iniciar a Revolução Industrial em muitos países. Assim, desejando que os trabalhadores servos fossem para as cidades a fim de constituir mão-de-obra para suas manufaturas, os burgueses expulsaram-nos das terras, proibindo-os de usar os campos, fornalhas, pastos, florestas, etc. Os camponeses perderam toda a garantia de séculos de uso do solo; foram para as cidades constituindo um mercado industrial de reserva (quando há um excesso de trabalhadores e os salários ficam sempre baixos, por causa da concorrência entre eles. Muito parecido com os dias de hoje).


Isso ocorreu primeiro na Inglaterra e a partir daí, a doação de terras foi proibida, dando início às leis liberais que limitam o acesso à terra por meio da compra e, protegem os bens materiais das elites que são as únicas que realmente tem condições financeiras para comprar terras. A lei diz “todos tem direito”, mas na realidade falta grana ao povão para poder ter acesso a essa riqueza.

domingo, 18 de dezembro de 2016

O Renascimento cultural e a criação do mito da Europa moderna

O Renascimento cultural e a criação do mito da Europa moderna

A inspiração dos renascentistas na Grécia e em Roma clássicas acabou por criar um mito de nascimento da Europa ocidental. Esse mito acabou por esconder as origens do próprio renascimento e ajudou a criar uma visão mitológica sobre a vida e os costumes nas cidades gregas e romanas.

Como os renascentistas se diziam inspirados na cultural greco-romana, eles negavam que a Idade Média tivesse alguma influência sobre o movimento. Mitificando a Grécia clássica como berço da filosofia e da própria Europa Moderna, como acabou por mistificar a História do período.

Hoje, sabe-se que a filosofia existia em regiões da Ásia (como a China) e da África muito antes da existência da Grécia Clássica. Também suas cidades não eram parecidas com a Europa, ou com o que virá-a-ser o “velho continente” nos séculos seguintes. Na realidade, as cidades gregas eram muito parecidas com as suas irmãs da Ásia Menor (costa oeste da atual Turquia).

Os costumes gregos também são mais próximos do mundo médio-oriental mediterrâneo do que com o mundo continental europeu. É interessante observar que a cultura grega antiga (chamada pelos próprios gregos de “helena”) é, muitas vezes, apresentada como mistura das tradições e culturas do médio-oriente apenas com a decadência da democracia e conquista macedônica, isto é, no período helenístico.

A mitificação da Grécia Clássica passou também por centrar seus estudos nas criações filosóficas-artísticas e no sistema democrático de governo (obviamente importantíssimos enquanto objeto de estudos), mas deixou de lado aspectos importantes da vida cotidiana das pessoas. Nesse sentido, conforme nos mostra Catherine Salles em “Os submundos da Antiguidade”, as cidades gregas eram locais de perdição, havia muita jogatina, bebedeiras, as famosas festas regadas a vinhos – em algumas delas, a festa só acabava quando a última pessoa caia de bêbada... Festas cheias de atos sexuais e outras formas de entorpecimento da psyché (pra ser bem discreto...) eram comuns.

Nas várias cidades gregas, havia diversas igrejas que usavam jovens (homens, mas principalmente mulheres) para, se prostituindo nas paredes externas dos templos, arrecadarem dinheiro para a instituição. Cidadãos gregos também usavam escravos para arrecadarem dinheiro (no entanto, era proibido pelas leis de Atenas, por exemplo, que um cidadão fosse colocado nessa condição, ou seja, uma criança ou jovem grega não podia ser usada para esse fim). Mas as crianças escravas isso era comum, e – por vezes – feita pelos próprios pais, a fim de garantir a sobrevivência da família. Algumas mães chegavam até a ensinar às filhas mulheres o dom de agradar um homem.

Outro aspecto do cotidiano pouco salientado era a influência que algumas prostitutas tinham sobre pessoas importantes da época democrática grega. O exemplo mais conhecido era de Laís, prostituta mais conhecida de Atenas.

Outras cidades Gregas clássicas também eram diferentes do que a imagem oficial passa delas. Por exemplo, Corinto era uma cidade portuária bem na passagem da Ática (onde ficava Atenas) e o Peloponeso (onde ficava Esparta), que atraía muitas pessoas com intenção de ganhar dinheiro lá. No entanto, a cidade era um ótimo lugar... para a pessoa chegar bem de vida e virar escrava, depois de perder tudo em jogos e prostituição.

Roma também foi mitificada. O centro da cidade era sujo, fedido e cheio de gente. Muitos senadores patrícios reclamavam nas sessões do Senado de ter que passar pela fedentina e multidão em meio ao cheiro de urina, gordura queimada (vinda das barracas de frituras) e dos corpos dos pobres que por lá ficavam. O “fascio littorio” era usado para passar nessa multidão...

O crescimento populacional em Roma fez a cidade ultrapassar os muros de proteção e outro foi construído mais adiante, no entorno da cidade. Os patrícios, cansados da agitação, de Roma chegaram a construir uma cidade há alguns quilômetros de Roma: Cápua; era usada para sair da agitação da capital.

Roma é muito conhecida por ter um extenso código de leis. Aliás, os romanos gostavam muito de legislar sobre os problemas e assuntos de sua civilização. Tanto que, até a suspensão da lei era legislada. Embora esse aspecto seja pouco lembrado hoje (Agamben faz uma referência a isso quando discute o “Homo sacer” e a vida nua), a suspensão das leis durante as festas pagãs, mais especificamente no “carnaval” romano, era algo que tornava a cidade um tanto quanto caótica (mas só por alguns dias...).

Esses e outros aspectos nada convencionais do dia-a-dia greco-romano ficaram esquecidos pela mitificação que o Renascimento criou sobre o mundo antigo clássico.

Nesse sentido, a negação da Idade Média como origem da Europa Moderna e sua busca numa época áurea se encaixam perfeitamente uma na outra.

Indicando as origens bárbaras da Europa Moderna, o medievalista Jacques Le Goff confrontou em várias de suas obras esse constructo intelectual que os renascentistas fizeram. Outro autor que será interessante para refletir sobre isso, é o sociólogo Norbert Elias, especialmente em sua obra “O Processo Civilizador”, no qual mostra a criação de manuais de “bons modos” para que os costumes bárbaros, tão frequentes nas pessoas europeias nos séculos XVII e XVIII, desaparecessem.

Por fim, podemos salientar que – ao apagar da História greco-romana as características da antiguidade que as ligavam ao mundo médio-oriental –, essa mitificação da Europa moderna é mais uma face de um profundo eurocentrismo que a civilização europeia difundiu ao longo de sua história e que, como tal, serviu de “padrão” para os costumes, as práticas, histórias e Histórias de outros povos do mundo.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

“Idade Medieval, idade das trevas?”


“Idade Medieval, idade das trevas?”

             Costumeiramente estuda-se o período que abrange os séculos 5 ao 15 como uma época em que não houve grandes avanços nos campos científicos e culturais da civilização ocidental; mas, a sociedade moldada pós-destruição do Império Romano era igual aquela que lançou homens ao mar, inventou diversas inovações tecnológicas como a imprensa e desenvolveu a filosofia escolástica? O conhecimento produzido durante esses dez séculos teria ficado só no âmbito da Igreja? Há como em um período tão longo, não haver nenhum avanço cultural-científico? A resposta é complexa!
            Primeiramente, como surgiu essa ideia? Ainda hoje, muitas pessoas a reproduzem e frequentemente falam da “Idade das Trevas”.
            No entanto, para que possamos entender esse processo de formação desse imaginário social é necessário irmos mais adiante, penetrando já na Idade Moderna e, especialmente, no Movimento Renascentista: Durante os séculos 15 e 16, a Europa viveu um processo de intenso desenvolvimento artístico-filosófico-cultural-científico que se caracterizou pelo nome de “Renascença”. Como o próprio nome diz, as pessoas desse movimento autodenominavam-se como portadores do “renascer“ da cultura clássica greco-romana. A Renascença era, para os homens que o viveram, segundo sua mentalidade, a volta da cultura europeia a luz, a claridade (algo onde o homem pode guiar-se, pois onde há luz, vê-se o caminho). Logo, para esse pensamento, se no século 16 há um renascimento é porque, pressupostamente houve um período de Trevas, de escuridão, onde o homem não podia ver o caminho em que trilhava, seguindo-o cegamente; para os homens – inventores, artistas, pensadores – esse período nefasto da história humana seria a Idade Média.
            Percebe-se que, ao jogar a Idade Média como um período de trevas, o movimento cultural-científico da Idade Moderna, o Renascimento estava legitimando-se, numa época em que a sociedade tem ainda uma mentalidade própria da Idade Média; pois como disse o historiador medievalista Jacques Le Goff, a mentalidade de uma época é imperceptível à mudança, enquadrando-se no que Ferdinand Braudel chamou de tempo “longa duração”.
            A ideia da “Idade das Trevas” foi trabalhada pelos “renascentistas” de diversas maneiras, ora confrontando-se com alguns dogmas religiosos, como por exemplo, através das artes sacras e a humanização dos corpos dos santos; ora criando no imaginário popular de que a Igreja tinha aprisionado o conhecimento, e por isso, teria impedido o homem de cruzar os mares à procura de riquezas, por causa das lendas que se criavam sobre monstros marinhos ou de a Terra ser plana.
            O homem que adentrava a Idade Moderna tinha em si, a ideia do geocentrismo da Terra, do maniqueísmo entre o bem e o mal. Essa mentalidade estava muito presente, por exemplo, em diversos homens que vieram para a América, sendo seu exemplo mais fiel, Colombo; enquanto que o homem “renascentista” pensava o como o homem como centro do universo e não apenas Deus (acusando a Igreja Católica de guiar os homens à escuridão do Teocentrismo).
            Então, o ideário renascentista criou sobre a Idade Média um imaginário social e um discurso que a representava como a Idade das Trevas, justamente para justificar um outro discurso subsequente de um novo tempo baseado na luz do conhecimento humano: racionalismo, antropocentrismo, etc.
            Por outro lado, a tentativa de influencia da Igreja sobre a vida das pessoas e a criação de um imaginário social voltado para os valores teológicos, em que nada poderia sair do âmbito dos valores religiosos aprisionaram o homem em um mundo que só o fazia pensar a partir daquilo que a Igreja dizia que era possível pensar, viver ou fazer. Nesse aspecto não houve só uma estagnação, mas um retrocesso, pois os valores democráticos, republicanos, humanistas, artísticos e filosóficos que os gregos e romanos criaram nas suas sociedades foram abafados pela sociedade medieval da época (mesmo que um teólogo como Santo Agostinho faça de Aristóteles – grande filósofo grego – sua inspiração, isso não chegava à população - tal como ocorreu com o desenvolvimento cultural que os gregos de Atenas tiveram, por exemplo). Esse retrocesso ocorreu principalmente na chamada Alta Idade Média (séculos 5 ao 10) e foi anemizado por um florescimento cultural na Baixa Idade Média (séc. 10 ao 15), especialmente a partir de meados do século 13.
            No entanto, grande parte do que poderia ter sido um florescimento cultural dos séculos 12 e 13 foi “abafado” pela Igreja Cristã, pois esta atacou as comunas autônomas (burgos que se emancipavam), bem como perseguiu e queimou nas fogueiras da Santa Inquisição diversas seitas hereges (herege vem do latim heresium, “aquele que tem outra opinião”) e pagãs do continente.
Pro tudo isso, o pensamento da época ficou restrito à Igreja e se desenvolveu dentro de suas paredes. Por exemplo, a filosofia escolástica deu início ao desenvolvimento do racionalismo – e o renascimento irá utilizar. Mas a Igreja monopolizava o conhecimento da época não o divulgando a população, o que mostra que, nesse aspecto, o pensamento renascentista tem certa razão sobre a “Idade das Trevas”. No entanto, fora de âmbito da Igreja, ou indiretamente relacionado a ela, os avanços laicos também ocorreram. A medicina feita por feiticeiras e povos não-cristãos, como os judeus, não seguiam a norma imposta pela Igreja de não-violação do corpo (violar a “morada da alma” seria um pecado).
            A variedade de músicas e ritmos foi bastante grande, especialmente com os cantos gregorianos e nas músicas populares entoadas nas ruas, praças através de festas populares ou por trovadores, ou a arte popularesca dos menestréis criando poesias cantadas, como as cantigas de amigo e de amor ou as cantigas ou de mal dizer, em meio às festas populares com bebidas, danças e representações artísticas e religiosas. Sendo estas as de maior ocorrência, que demonstram a população ligada ao espírito cristão. O surgimento do Carnaval no último dia da Quaresma é parte dessa relação.
No fim da Alta Idade Média, a criação de um imaginário pagão vindo dos servos e da baixa nobreza e chamado de “Maravilhoso” era composto de uma série de monstros e seres antropomórficos e se estendeu por muito tempo na mentalidade das pessoas. O “Maravilhoso” era uma forma de contrapor a pregação da Igreja Cristã de que as pessoas mais simples criavam “ilusões”, “miragens” para não aceitar o que o dogma religioso os impunha. É, nas palavras do historiador Jacques Le Goff, uma forma de “resistência a ideologia oficial da época”. A igreja cristã, por sua vez, percebeu que não adiantava apenas combater essas ideias. (Se assim o fizesse, ela perderia força e desapareceria). Então, não atacava todas essas manifestações do Maravilhoso como “bruxaria” (o que era a prática comum da Santa Inquisição) mas, canalizava algumas delas para a aceitação das ideias religiosas da própria igreja cristã pelas pessoas comuns. As “miragens” vistas por estas eram “transformadas” em santos da Igreja Cristã (católica), por exemplo.
            Todas essas formas de manifestações culturais, sejam elas populares ou eclesiásticas, serviram de meio divulgador de informação e cultura na Idade Média.
            Por fim, além dos já citados desenvolvimentos na arquitetura, há também a criação do moinho de vento ou do hidráulico, do arado puxado por força animal, do relógio mecânico, das lentes para correção visual, dos fossos de proteção dos castelos feudais e de um melhor manuseio do ferro pelo homem.
 

O Renascimento Cultural


O Renascimento Cultural

Renascimento é o nome que se dá a um movimento cultural, que ocorreu na Europa Ocidental entre os séculos 14 e 16, inspirado na cultura greco-romana, também chamada de “cultura clássica”. Esse momento foi feito por camadas urbanas de alguns burgos e foi considerado um fenômeno de passagem da mentalidade feudal para uma nova, capitalista.

O Renascimento foi um movimento de artistas e intelectuais das cidades e representava uma nova concepção de vida que essas cidades encarnavam.  Desde a crise do sistema feudal e o ressurgimento do comércio e das cidades (burgos), as ideias dessas pessoas serão exaltadas e difundidas, especialmente nas obras de arte.

Desde a crise do sistema feudal, havia uma ascensão da burguesia comercial (mercadores) enquanto classe social e, com ela, novas relações de trabalho que se desenvolviam nas cidades. O renascimento representa essa ascensão.


 "O homem é a medida de todas as coisas"

Filosoficamente, esse movimento se baseava no humanismo que, descartando a escolástica medieval, propunha um retorno à virtude greco-romana. Autores como Platão, Aristóteles e Sêneca, entre outros, foram publicados – a partir da invenção da imprensa em 1455 pelo alemão Johannes Gutemberg – e difundidos. No entanto, mesmo usando as ideias da cultura clássica, o Renascimento não foi uma simples cópia desta, pois as ideias eram usadas de acordo com o contexto histórico do final da medievalidade e início da modernidade.

Outra concepção que os homens renascentistas valorizaram era o antropocentrismo: isto é, a visão de que as coisas do mundo ocorriam a partir da importância do ser humano. O trabalho, o comércio, as guerras, os sentimentos, as lutas sociais começaram a ser estudadas como produto da ação do homem.

Outra característica forte do movimento foi o racionalismo, isto é, a certeza de que tudo pode ser explicado pela razão do homem e, consequentemente, pela ciência. Essa ideia levara a recusa em acreditar naquilo que não tenha sido provada. Por isso, o experimentalismo científico era valor importante para os renascentistas.

Além desses, o individualismo também foi um dos valores renascentistas: cada um é responsável pela condução de sua vida, podendo fazer opções e discutir suas ideias com os outros.  Abre-se a possibilidade de uma tomada de decisões por cada homem.

Outras características do Renascimento foram: o naturalismo, o estudo da natureza, acentuando o espírito de observação dos seres humanos; o hedonismo ou "culto ao prazer", a ideia de que o homem pode produzir o belo e assim pode gerar obras apenas pelo prazer que essa lhe dá (rompendo com o pragmatismo); o universalismo, o homem deve se desenvolver em todas as áreas do saber; (nesse sentido, Leonardo da Vinci é o modelo de "homem universal": pintor, inventor, escultor, matemático, físico, tendo estudado inclusive aspectos da biologia humana…).



Maquiavel e a divisão das responsabilidades

Nicolau Maquiavel foi um pensador renascentista que viveu entre o final do século 15 e início do 16. Seu pensamento é muito importante para entender o fundamento filosófico do Renascimento, pois ele é visto como fundador do pensamento político moderno, pois em suas obras escreveu sobre o Estado e o poder político.

O grande sonho de Maquiavel era ver a Itália unificada (pois na época a região era formada por diversos principados, reinos, repúblicas e outros – todas brigando entre si). Para Maquiavel, um grande príncipe era aquele que conseguiria conquistar e, principalmente, manter um grande reino. Para isso, o príncipe devia unir a Virtú (capacidade) e a Fortuna (oportunidade). A capacidade era algo humano e devia ser desenvolvida pelo homem-rei; enquanto a oportunidade era Deus que dava ao homem. Em sua principal obra, “O príncipe”, Maquiavel explica essas ideias e cita Alexandre o Grande como exemplo de alguém que desenvolveu a capacidade – afinal conquistou enormes regiões na Ásia para o Império Macedônico da Antiguidade – mas, não recebeu de Deus a oportunidade de ser um grande rei, pois morreu na volta para a Europa.

Perceba: o pensamento de Maquiavel divide as responsabilidades entre Deus e o homem nas ações humanas, questionando a visão da Igreja da Idade Média que pregava o Teocentrismo e a Sacralização da Vida, nas quais o homem era visto apenas como um ser “manipulado” por Deus (ou pelo demônio), sendo que, Deus decidia quais os caminhos que o homem podia ou não fazer – e o demônio o tentava para caminhos ruins. O pensamento de Maquiavel dá aos seres humanos a capacidade de agir de acordo com suas vontades, seu livre-arbítrio. No entanto, Maquiavel, e o próprio Renascimento, não rompem com a igreja cristã, mas apenas criticam a visão que dava a centralidade das ações e dos acontecimentos humanos para Deus.

Mecenato e a expansão do Renascimento

Em algumas cidades italianas, especialmente naqueles ligadas ao comércio, importantes transformações - como a formação de grupos de burgueses ricos (que precisavam de reconhecimento social), foi onde o Renascimento mais se desenvolveu. Desde a século 13, o comércio levou à urbanização e autonomia das cidades. Assim, os homens buscavam decidir as coisas em conjunto e desenvolveram uma nova mentalidade que levará a produção de obras de arte e pensamentos que mostravam essa visão renascentista.


Nesse sentido, o mecenato foi fundamental para a produção intelectual e artística do renascimento. O mecenas era considerado "protetor": homem rico que financiava a produção das artes. O mecenas se beneficiava das obras com o prestígio social obtido pelas ideias difundidas.

No século 16 a cultura renascentista expandiu-se para outros países da Europa Ocidental, justamente quando entrava em crise na região da Itália. Como essa região era muito dividida e vivia em guerras e invasões, as ocupações, de franceses e espanhóis, por exemplo, levaram a um conhecimento sobre as ideias renascentistas. Também, devido as grandes navegações países como Portugal, Espanha e Inglaterra desenvolveram uma mentalidade que unia os interesses e a ideias renascentistas da burguesia com os interesses da nobreza. Nesse momento, a decadência do comércio das cidades italianas beneficiou as áreas “atlânticas” do Renascimento impulsionando o movimento nessas regiões.