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sábado, 19 de novembro de 2016

O governo João Goulart e o golpe civil-militar de 1964

O governo João Goulart e o golpe civil-militar de 1964

Para começar você pode imaginar que o governo de Jango ocorreu com uma forte oposição de todas os grupos e instituições conservadoras-reacionárias que havia no país na década de 1960. Em 1961, associavam-se nesse “bloco” os capitalistas estrangeiros, muitos capitalistas brasileiros, a UDN (é claro!), os militares golpistas e outros. Mas esse bloco vai engrossar – diversos grupos vão aumentar o seu grito exigindo um golpe contra Goulart. Esse “bloco” será chamado até a partir de agora de “multinacional-associado” (R. A. Dreifuss) ou “multinacional-liberal” por representar os interesses do capital estrangeiro e daqueles que se associam econômica e politicamente a esses interesses. Por outro lado, podemos identificar o “bloco nacional-estatista”, defendendo a defesa de interesses nacionalistas e do Estado como promotor das mudanças sociais.
Nesse momento, o governo dos EUA ainda não vê com bons olhos a deposição de governantes na América para “manter o capitalismo”. Por hora, o governo Kennedy aplica seus esforços na “Aliança para o Progresso”, tentando minar a possibilidade de revolução socialista ou mesmo de reformas profundas nesses países. A classe média – que irá aderir por medo do “comunismo ateu” e a Igreja Católica (a mais forte do Brasil à época) ainda não estão totalmente mobilizadas.
Por outro lado, os grupos políticos que representam o pensamento “nacional-estatista” eram heterogêneos, mas – em sua grande maioria – vão apoiar o governo Goulart. Entre estes estavam o PCB, o PTB, o PSB, os políticos da esquerda nacionalista: Leonel Brizola, Miguel Arraes, Francisco Julião (das Ligas Camponesas) e outros. Embora disperso, esse grupo vê o governo de Jango como uma enorme possibilidade de fazer as reformas sociais necessárias para um Brasil melhor. Evidentemente, muitos destes não queriam ficar só nas reformas. Havia adeptos da “revolução”, especialmente após a vitória das Revoluções Chinesa (1949) e Cubana (1959).
Em agosto de 1961, a renúncia de Jânio Quadros e seu plano espalhafatoso de voltar nos braços do povo, dando um golpe de Estado vai por água abaixo. O povo – que Jânio imaginava manipular – não vai às ruas pedir sua volta. O Brasil entra em uma profunda crise política na qual os comandantes militares e setores das elites liberais (UDN) não aceitavam a posse de João Goulart (Jango) e anunciam ao país suas intenções. As rádios são tomadas e os aeroportos controlados pela aeronáutica recebem a ordem de prender Goulart assim que ele pisasse no Brasil (estava em viagem à China socialista). Para piorar, o Congresso Nacional - numa madrugada - viola a Constituição e retira o “vice-presidente” da ordem de sucessão na ausência do presidente. Por outro lado, no Rio Grande do Sul, o governador Leonel Brizola resiste e cria a “Campanha da Legalidade”. Usando os transmissores de uma rádio, ele chama o povo para resistir à tentativa de golpe. O comando do exército dá uma ordem ao Gal. Machado – comandante do III Exército, com sede em Porto Alegre – para prender Brizola, mas aquele se apresenta ao governador e se declara fiel a Legalidade. Diante de manifestações populares em diversas cidades pela posse de Jango (que entra pelo sul do país), os golpistas querem um acordo: Jango assumiria, mas em um sistema parlamentarista. Brizola é contra, mas Goulart aceita a proposta. Curiosamente, no acordo havia uma exigência dos golpistas: Jango não podia falar para a população até a posse; temiam que Jango influenciasse a população a seu favor (lembre-se: as elites olhavam Goulart e viam Vargas!!!) ... a posse será em 07 de setembro de 1961.
O governo Goulart começa com um problema para resolver. Jânio havia mudado regras econômicas por instruções da SUMOC (Superintendência da Moeda e Crédito) e liberado o câmbio do dólar. A moeda subia mais que o esperado e um monte de produtos vindos de fora subiam de preço a níveis que atingiam em cheio o bolso do povão e da classe média.
Além disso, a oposição a Goulart atacava, taxando-o de fraco e desequilibrado para governar. Para variar o maior opositor de Jango era Carlos Lacerda. Devido a seu poder de comunicação (falava muito bem, tinha conhecimento e era dono de um jornal, o Tribuna da Imprensa) Lacerda será eleito em 1962 para governador da Guanabara (era o Distrito Federal; atual região metropolitana do RJ). A partir daí a oposição de Lacerda a Jango cresceu, pois os dois coabitavam o mesmo espaço e o primeiro tinha a “mídia” da época a seu lado e uma enorme força política e policial. Lacerda também era adorado por setores mais extremistas das Forças Armadas.
O projeto de governo de Jango se baseava nas “Reformas de Base” que pretendiam mudar a estrutura sócio-econômica do Brasil, distribuindo renda e acesso aos serviços públicos. Havia reformas em diversas áreas. Vejamos algumas delas:
·         Agrária: projeto de desapropriar as terras ao longo de ferrovias e rodovias para distribuir aos “sem-terras” da época;
·         Administrativa: controlando, p.ex., a contratação de parentes para cargos públicos;
·         Bancária: controlando os lucros exorbitantes que esse setor tinha;
·         Urbana: diminuindo o preço do aluguel ao controlar a especulação imobiliária;
·         Educacional: através do projeto de Darcy Ribeiro que visava uma educação crítica em todos os níveis do ensino nacional;
·         Trabalhista: estendendo a CLT para os trabalhadores do campo e garantindo mais direitos aos trabalhadores urbanos, como a estabilidade de emprego;
·         Econômica: limitava as remessas de lucros das multinacionais ao considerar como lucro tudo o que fosse reinvestido e retirado por meios ilegais do país.

Uma das grandes brigas do governo Goulart foi a questão da Reforma Agrária. Jango esforçava-se muito por esse projeto. O obstáculo maior era que, para desapropriar as terras, o governo era obrigado a pagar o fazendeiro com dinheiro vivo. Jango queria mexer na Constituição, tornando o pagamento possível com títulos do governo. A oposição não aceitava.
 Desde o final da década de 1950 havia sido formado no interior do país, e principalmente no nordeste, as Ligas Camponesas. Organizadas pelo advogado e deputado Francisco Julião, lutavam pela Reforma Agrária. Os “coronéis”, donos das terras – que estavam se preparando para uma guerra – odiavam a ideia de os pobres do campo se organizarem para reivindicar direitos. O pior é que Julião embarcou nessa, foi para Cuba e radicalizando criou o lema “Reforma agrária: na lei ou na marra”. Julião ainda dizia ter milhares de camponeses armados, prontos para agir numa guerra contra os senhores... tudo cascata. Em 1964, não haverá nenhum sertanejo pronto para a luta...
Outro problema para Goulart foi uma decisão tomada pelo então governador do Rio Grande do Sul e cunhado de Jango, Leonel Brizola. Ele expropriou os bens (não as ações) de uma filial da IT&T (International Telephone & Telegraf) - multinacional norte-americana da área de telefonia. A ação contra a “Companhia Telefônica Nacional” ocorreu, segundo Brizola, pois fazia um serviço caro e de péssima qualidade. Ele já havia encampado a Companhia de Energia Elétrica Riograndense, filial de outra norte-americana, AMFORP ou American & Foreign Power (Bond & Share). O governo dos EUA exigiu de Jango uma reparação. Quando houve acordo, a esquerda (forte no bloco nacional-estatista) criticou a quantidade de dinheiro que o governo brasileiro iria dar a IT&T para compensar a expropriação. Brizola dizia:”...não vale tudo isso... é tudo sucata!!”.
A relação com os EUA ainda pioraria quando o governo brasileiro se recusa a apoiar este país contra Cuba durante a crise dos mísseis com a URSS (final de 1962). Goulart defendia o que se chama de “Política externa independente”. Em plena Guerra-fria esta posição era considerada por demais independente para um “paísinho” subordinado como o Brasil.
Nas eleições de 1962, um outro componente entra em cena: o IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) – instituição organizada e financiada com dinheiro de empresários (nacionais e estrangeiros) e em contacto com a CIA (Central Inteligency Agency - Serviço de espionagem norte-americano) para desestabilizar e, depois, derrubar o governo Goulart. É isso mesmo que você está lendo: o empresariado – a burguesia – pagou para o golpe acontecer! Entre estes magnatas das comunicações na época; donos de colégios e faculdades privadas; além de muitas multinacionais: Ford, Mercedes-Benz, Coca-Cola...
O golpe será chamado por estes de “revolução” e defesa da “democracia” (SIC). Todos se dizem “democráticos, mas como “em política não vale o que se fala, mas o que se faz”... (lembre-se sempre dessa frase), o termo “Democrático” é, no século XX, sinônimo de “capitalismo” de manutenção das desigualdades e da estrutura social desigual e não de uma sociedade mais justa, menos desigual, com direitos civis e políticos...
O IPES, chefiado por banqueiros brasileiros, recolhia “contribuições” dos empresários para financiar todo tipo de propaganda contra o bloco nacional-estatista e, óbvio, Jango. Nas eleições de 1962, houve centenas de candidatos da direita que tiveram suas campanhas pagas pelo IPES ou por dinheiro que o Departamento de Estado do governo dos EUA enviava para as “ilhas da sanidade administrativa”, isto é, a oposição a Jango. Mas – como a direita não é burra – havia uma outra instituição que fazia a fachada para o IPES não aparecer: era o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática). Por meio desta as campanhas contra Goulart (através de jingles, panfletagem, edições de livros e periódicos, emissoras de rádio etc.) serviram para desgastar a imagem do presidente. Ahh!! ...o embaixador dos EUA também agia, por baixo dos panos, contra o governo...
Mas havia vitórias do bloco nacional-estatista também: Miguel Arraes foi eleito governador de Pernambuco (estado sempre comandado pela direita) e Leonel Brizola foi eleito deputado federal pela Guanabara, com uma votação superior a de Luis Carlos Prestes (PCB) em 1946. O PTB duplicou o número de deputados nessas eleições.
No parlamento, os partidos políticos se dividiam quando ao apoio ao governo Jango. O PTB era, em grande maioria, a favor das ações do presidente. Mas havia dissidentes. O PSD era, a princípio contra, mas pensava negociar algumas das reformas que Goulart queria fazer. A UDN, em maioria era contra, mas havia uns poucos dispostos a conversar.
Perceba que as posições dos partidos estavam divididas entre os dois blocos que disputavam a hegemonia para seu projeto. Por isso é que se formou a ADP (Ação Democrática Parlamentar) congregando políticos da UDN, uma parte do PSD e alguns do PTB. Havia também os políticos do PSP (Partido Social Progressista) do corrupto político paulista Ademar de Barros. Eram favoráveis ao bloco multinacional-associado, mas é claro, alguns tinham ressalvas a fazer ao capital estrangeiro. Por outro lado, havia a FPN (Frente Parlamentar Nacionalista) que articulava a “ala moça” do PSD (como eram chamados os nacionalistas dessa agremiação), o PTB em peso, o PSB (partido socialista brasileiro) que defendia as ideias do bloco nacional-estatista.
O parlamentarismo instituído em 1961 não funcionou. O primeiro-ministro Tancredo Neves saiu do cargo para disputar as eleições parlamentares em 1962. Também estava cansado de tentar articular um sistema de governo misto (meio presidencialista, meio parlamentarista) durante a crise política e econômica que aumentava. Dois outros primeiros-ministros passaram pelo gabinete, mas a insatisfação era grande: Jango queria ser presidente para valer. Outros políticos queriam disputar as eleições de 1965 no presidencialismo. Os empresários achavam que um governo concentrado resolveria a crise econômica. A esquerda queria que Jango assumisse mais poder para poder realizar rapidamente as Reformas de Base. Os militares achavam que com o presidencialismo era mais fácil decidir e resolver problemas.
Como era de seu costume desde o tempo como Ministro do Trabalho de Vargas Jango apoiou as reivindicações de trabalhadores e a formação de uma central sindical de âmbito nacional. Assim, a CGT (Comando Geral dos Trabalhadores) – atuando ilegalmente – coordenava as greves, especialmente de funcionários públicos, com o objetivo de reaver as perdas salariais e de aumentar os direitos dos trabalhadores, apoiando as Reformas de Base e a campanha pela antecipação do plebiscito do presidencialismo para janeiro de 1963.
Realizado o plebiscito o presidencialismo ganhou com esmagadora maioria. Mas Jango teria plenos poderes para poder implantar as reformas de base?
No entanto, havia um problema: a crise econômica se agravara. A inflação ultrapassava os incômodos 40%. O pagamento da dívida externa também estava comprometido. A moeda caia.
Para resolver esse problema, o braço direito de Jango no governo, San Thiago Dantas vai a Washington (EUA) tentar negociar empréstimos para o Brasil. Lá, ouviu promessas e a cobrança de solução da questão da AMFORP. Aqui Brizola denunciava as fraudes que a empresa norte-americana fez para dizer que precisava ser ressarcida. Tudo falso: os americanos já haviam recuperado todo o investimento feito no Brasil, mas mentiam dizendo que estavam em prejuízo. San Thiago Dantas fecha um acordo nos EUA, mas quando chega ao Brasil, a pressão sobre ele é tão grande que sai do governo. Washington não gostou. Achou que Jango perdera seu ponto de apoio. A partir daí, o dinheiro prometido não viria. Com a ajuda do embaixador Lincoln Gordon o governos dos EUA só emprestaria dinheiro aos políticos, estados e municípios que representassem as “ilhas da sanidade”. Perceba: colocar dinheiro dentro de um país, sem a conivência do governo federal, significa passar por cima da soberania do país. É um atentado a essa e uma ofensa ao povo que elegeu e referendou um presidente.
Ao mesmo tempo Jango realizava medidas econômicas e sociais que davam lhe grande prestígio junto à população. Em 1964, o presidente chega a estar com mais de 70% de aprovação em relação às medidas que tomava. E isso, com inflação e tudo. O projeto que Jango aplicava era uma continuação do getulismo, porém aumentando os direitos trabalhistas e sem a mitificação que Vargas fez de si próprio. Podemos chamar de trabalhismo e, segundo Luiz A. Moniz Bandeira, essa projeto político se assemelha muito a social-democracia do início do século XX.
1963 foi um ano agitado para Jango: uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) revela que o IBAD financiou ilegalmente muitas campanhas em 1962. O IBAD foi fechado, mas – por haver muitos deputados envolvidos no caso fazendo parte da CPI – o IPES ficou ileso...
Em agosto um grupo de 500 sargentos se rebela em Brasília. Até a esquerda mais radical foi pega de surpresa. Os sargentos reivindicavam a elegibilidade e a possibilidade de se casarem. Tomam uma rádio, leem manifesto e... a revolta não tinha mais o que fazer. Cercados pelo exército se rendem. As Forças Armadas querem puni-los, mas Jango anistia os rebelados. No embalo dessa revolta, o tom das críticas dos militares ao governo aumenta: muitos generais criticam Jango por causa das greves, “desordem”, “caos”, “comunismo”. Para os militares que aprendem que tudo é “hierarquia” e “ordem”, uma greve é um absurdo. Afinal qual é o problema de um trabalhador morrer de fome desde que esteja obedecendo e respeitando seu superior?
As articulações do governo dos EUA para derrubar Jango aumantam de intensidade quando em 1963, o presidente Kennedy é assassinado em Dallas (Texas). Motivo: não quis invadir Cuba novamante. Foi taxado de “comunista” pelos fanáticos da burguesia bélica e por setores reacionários nos EUA. Seu sucessor, Lyndon Johnson,  mudara a política externa norte-americana para a América Latina: a partir daqui, os golpes de Estado são bem vistos e apoiados. Assim, Vernon Walters (adido militar dos EUA para o Brasil) se tornará uma figura chave para a articulação do golpe junto ao gal. Humberto Castelo Branco. Milhares de militares dos EUA, os “boinas verdes”, são mandados para o nordeste brasileiro com o intuito de lutar contra as forças do governo. As elites brasileiras se preparam para uma “guerra civil”. Fazendeiros compram armas. Lacerda “bate” em Jango o tempo todo: “fraco”, marionete dos comunistas” etc. Bilac Pinto da UDN incita os ricos a se armarem: “Armai-vos uns aos outros, pois nós já estamos armados”...
Em outubro de 1963, diante da suspeita de planos vindos de pessoas ligadas a polícia da Guanabara para matar Jango e sua família no feriado do dia 12, alguns militares nacionalistas pedem para Jango decretar “estado de sítio”. A intenção era destituir Lacerda na Guanabara e Ademar de Barros em São Paulo (pois conspiravam abertamente). Barros compara armas para a força pública (polícia civil) de SP e dizia abertamente que era para a “guerra civil”. A proposta de estado de sítio vai para o congresso, mas não chega a ser votada: diversas entidades e pessoas que apoiavam Jango se recusam a aceitar aquela medida. Não confiando no presidente achavam que ele poderia usar isso para dar um golpe de estado (perceba: mesmo os apoiadores de Jango olham pra ele e veem Getúlio Vargas. Miguel Arraes, em PE, tinha medo de que fosse retirado de seu cargo. A UNE se declara contrária. Brizola e Prestes apoiavam. Com a oposição batendo e os apoios divididos Jango retira a proposta antes de ser votada. Grande derrota...
A partir do início de 1964 o bloco multinacional-associado conspira abertamente para derrubar Jango. Lacerda pede na mídia que os militares derrubem Jango!?!! O governo dos EUA, articulado aqui pelo embaixador Lincoln Gordon e por agentes da CIA, monta a operação “Brother Sam” que previa o desvio de um arsenal de guerra do Caribe para o Brasil... estava previsto para chegar aqui lá pelo 8 de abril. A UDN fala abertamente em “golpe” e “guerra revolucionária” (SIC).
Aumentam o número de greves e manifestações de apoio dos trabalhadores para Jango. Este - pressionado por todos os lados, inclusive pela esquerda mais radical (que incluía seu cunhado Brizola) – desiste de fazer acordos com a direita. 1964 seria ano de reformas de base... na lei ou na marra! Jango faz algumas reformas que beneficiam o povo. Homologa uma lei do tempo de Jânio que prevê limitações as remessas do capital estrangeiro. Essa lei foi feita por um deputado do PSD e Jango – num erro absurdo – demorou para colocá-la em prática. A questão da reforma agrária gera maior controvérsia. Os partidários de Jango, alguns incentivados por Brizola, radicalizam: diziam que com esse Congresso não dava mais para conversar. O negócio era mudar a Constituição através de decreto presidencial. Diziam também ser necessário mexer na não-elegibilidade de Jango ou Brizola para as eleições de 1965. Por sua vez o próprio presidente se isolou dos setores da direita que queriam uma solução “normal” para o impasse. Goulart sempre foi uma pessoa que fez da negociação e da conciliação suas “armas políticas”. Agora abandonou essas armas...
Como resposta, a direita reagia defendendo a legalidade da Constituição, i. e., dizia que Jango era golpista e que preparava um regime de “república sindicalista” nos moldes que R. D. Péron criou na Argentina (de novo, a visão de olhar Jango e ver Vargas...). Acusavam também Goulart de se entregar ao “Movimento Comunista Internacional”. Os jornais se enchiam de charges denunciando Jango como “marionete” de Luis Carlos Prestes e do PCB.
A partir daqui os ânimos vão esquentar: Prestes dá uma entrevista na TV Tupi e chama os generais da direita de “Gorilas golpistas”. Em outro momento provocou: “Já temos o poder, só nos falta o governo...” Perceba: a ideia de gorilas mascara a enorme conspiração civil que estava por trás do golpe. As declarações de Prestes foram, no mínimo, impensadas e provocativas, pois exercer poder é mais difícil do que ser governo.
Em 13 de março de 1964 as forças favoráveis ao governo, especialmente o PTB, promovem na Central do Brasil (RJ) um comício. Arraes, Brizola, sindicalistas da CGT entre outros discursaram. Mas o mais esperado era Goulart. Ao lado de sua bela esposa Maria Tereza ele falou por mais de duas horas. Estava tenso, abandonou o discurso preparado e, emocionado, falou para mais de 100 mil pessoas. Defendeu as Reformas de Base e anunciou a homologação de dois decretos: o da reforma agrária e o do controle sobre as remessas de lucros do capital estrangeiro. Também atacou os que queriam derrubá-lo. O público foi ao delírio.
Próximo dali, o gal. Humberto Castelo Branco viu o comício e – como líder da conspiração decidiu que estava chegando a hora de agir. Para ele era um absurdo a CGT existir, o povo pedir e Goulart conceder. No entanto, mesmo que os militares golpistas se irritassem ainda havia muitos “legalistas” nas Forças Armadas. O que fazer para convencer os indecisos a conspirar contra o governo? No dia 20 de março, Castelo lança uma Circular Reservada unindo os golpistas. E hoje, os golpistas mentem ao dizer que Castelo só aderiu ao golpe de última hora...
Em 19 de março a classe média e a Igreja católica dão uma resposta a Jango. Chamados pela Igreja e por grã-finas ricas que vão às favelas dizer que os comunistas iriam roubar os filhos das pessoas pobres, 500 mil pessoas saem às ruas de SP na “Marcha com Deus pela família e a liberdade”. O embaixador dos EUA, L. Gordon, notou em telex para seu governo que havia pouquíssima participação popular na marcha. Por que será, né?
Os militares dizem que depois de 13 de março eles eram cada vez mais cobrados por membros das classes médias para derrubar Jango. Mas faltava algo... O general Assis Brasil, chefe do Gabinete Militar do governo dizia a Jango que tinha um “dispositivo militar” pronto para enfrentar os golpistas. Cascata? Incompetência? Na “hora H” o tal dispositivo aderiu ao golpe...
Em 24 de março estoura uma rebelião dos marinheiros contra as rigorosas regras internas da marinha e por direitos políticos (reconhecimento de associação sindical, elegibilidade etc.). Tropas do exército são deslocadas para o sindicato dos metalúrgicos do RJ para prender os rebelados, mas aderem à revolta. O mais radical de todos os marujos é o “Cabo Anselmo” ou José Anselmo dos Santos[1]. Para muitos em 1964 ele era um espião da CIA e trabalhava como agente provocador, i. e., para radicalizar a rebelião e tornar as coisas mais difíceis para o governo. A marinha conseguiu prender os rebelados, mas Jango os anistiou. Irritados com a quebra da hierarquia do presidente, os almirantes da Marinha passaram para o lado dos golpistas.
Mas havia mais... no dia 30 de março a noite, Jango numa reunião de sargentos no Automóvel Clube do RJ. Discursa apoiando as reivindicações dos presentes. Foi a gota d’água: lá pelas duas da manhã, quando o discurso terminou, em Juiz de Fora (MG) o gal. Olímpio Mourão Filho (o mesmo do Plano Cohen do golpe de 1937!!) já estava fardado e saiu com suas tropas em direção ao RJ para derrubar Jango. Castelo e outros golpistas, com medo de que o governo pudesse por tropas contra os golpistas, tentaram barrar Mourão mas, não conseguindo, apoiam o general.
Mourão chegou ao RJ às duas da manhã de 01 de abril de 1964. Jango já havia ido para Brasília, mas sabendo que outros generais mexiam suas tropas para prendê-lo, voa para o RS, durante a madrugada do dia 02 de abril. Nesse momento, no Congresso o Senador Auro de Moura Andrade – antigo desafeto de Jango – faz uma sessão relâmpago e, surpreendendo a todos, declara vaga a presidência da República por que Goulart havia deixado o território brasileiro (o que era mentira!). Era a cobertura legal para o golpe que estava em andamento.
Chegando a Porto Alegre Jango se reúne com assessores, Brizola, Ladário Telles (comandante do III Exército) e outros. Muitos queriam resistir, mas Jango não queria ver derramamento de sangue. Vários legalistas queriam, mas não tiveram apoio de Jango para reagir.
Em 02 de abril o golpe estava consumado. O detalhe é que muitos militares indecisos acabaram ficando do lado dos golpistas por uma questão de hierarquia e ordem... outros foram literalmente comprados pelos golpistas...
A CGT foi fechada, a sede da UNE destruída, milhares de pessoas presas e torturadas. O militante Gregório Bezerra (PCB), com mais de 60 anos, foi amarrado à traseira de um jipe na sede do IV Exército em Pernambuco e arrastado pelas ruas de Recife. Além disso, cassação de direitos, humilhações, prisões, expulsão dos legalistas das Forças Armadas e exílio passam a ser uma constante.
“Bem-vindo” ao período mais obscuro da História do Brasil... os longos 21 anos da Ditadura Civil-Militar  (1964-1985).

Fontes:

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[1] Durante a ditadura Anselmo participou da luta armada e, entregou dezenas de pessoas para a o delegado Sérgio Paranhos Fleury (inclusive uma namorada grávida, para morrer na tortura). Anselmo era um “espião” ou um “cachorro” – na gíria da repressão – que se infiltrava nas organizações armadas e levando informações para a repressão ajuda a destruí-las. Hoje Anselmo vive escondido em alguma cidade do Brasil. Fez plástica, anda de terno e gravata e morre de medo de ser reconhecido... ahh... ele mesmo diz que foi abandonado pelos membros da repressão que ajudou.